segunda-feira, 27 de julho de 2015

Droga Contra Psoríase Mostra Resultados Promissores em Diabetes Tipo 1



O diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é uma doença auto-imune, ou seja, decorrente do ataque de células de defesa contra componentes do próprio organismo. Chamado antigamente de diabetes juvenil, pode surgir em qualquer idade, mas na maioria esmagadora dos casos aparece na infância e adolescência.  

É uma doença de tratamento dispendioso em uma série de sentidos. Exige o uso de insulinas, preferencialmente análogos mais modernos (e caros) ou, se possível, em bomba (com custos ainda maiores). Medidas de glicemia capilar (as famigeradas furadinhas na ponta dos dedos) ainda são necessárias, e quanto mais frequentes, melhor o controle.

Doses insuficientes de insulina deixam o paciente com glicemia alta, conduzindo quase que inexoravelmente às complicações crônicas: lesões nas retinas, nos nervos e insuficiência renal após algumas décadas. Doses muito altas expõem ao risco de queda exagerada do açúcar (hipoglicemia), à qual as crianças são particularmente susceptíveis. Níveis muito baixos de glicose no sangue podem provocar perda de consciência e convulsões, desencadeando enormes traumas em toda a família.

Parece ruim? Pois saiba que há menos de 100 anos (até 1922, para ser mais preciso) o DM1 era uma doença uniformemente fatal tipicamente após poucos meses, mesmo com dieta zerada de carboidratos: não havia insulina sintética. Ninguém sobrevivia.

Primeiro diabético tipo 1 a receber insulina: antes e depois

Os avanços foram muitos e hoje, com uma boa dose de disciplina, os diabéticos tipo 1 podem ocupar qualquer função produtiva na sociedade. Alguns são campeões olímpicos, artistas de sucesso, cientistas, médicos (muitos endocrinologistas, por sinal).

Mesmo com a melhor bomba de insulina, entretanto, o diabético tipo 1 se vê entre a cruz e a espada; entre a hipoglicemia hoje ou as complicações do futuro. Este cenário tende a mudar radicalmente nos próximos anos: já estão em estudo implantes de células produtoras de insulina (células-beta) derivadas de células-tronco do próprio indivíduo e multiplicadas em laboratório. As bombas também se tornam cada vez mais autônomas, com algoritmos definindo o ritmo de infusão a partir dos níveis de glicose percebidos pelo próprio aparelho; muitas infundem glucagon (o “antagonista” da insulina) quando o açúcar cai demais.

Diante desse contexto, nunca valeu tanto a pena controlar o DM1 quanto agora. Fazer o sacrifício de manter-se saudável hoje pode significar a possibilidade de desfrutar de um tratamento muito mais tranquilo daqui a cinco anos sem que as temíveis complicações tenham se instalado.

Cada dia, cada mês de controle podem fazer a diferença, como fizeram em 1922. Por isso se justificam os esforços voltados para os pacientes que acabaram de receber o diagnóstico de DM1. Quando a doença se descortina, tipicamente ainda existe uma reserva viável de células-beta que, caso preservada, sustentaria glicemias normais durante anos. Qualquer restinho de produção natural (que, por sinal, é muito mais sofisticada do que qualquer bomba) de insulina significa menos injeções, menos oscilações e melhores glicemias.

As estratégias tentadas foram as mais diferentes possíveis: insulina oral tentando “enganar” o sistema de defesa, supressores de imunidade e até o agressivo transplante de medula óssea sem grande sucesso ou com muitos efeitos colaterais. Mexer na imunidade é complicado, e alguns destes tratamentos testados levaram à reativação do vírus da mononucleose, síndromes agudas e até doenças neurológicas.

O “santo graal” seria atingir unicamente as células que atacam o pâncreas, preservando todo o resto da imunidade. O problema é que atingir isso é quase tão difícil quanto tomar um comprimido que só atue no dedinho do pé esquerdo.

Ainda que não seja possível atingir tamanho refinamento hoje, há muito espaço para ganhar especificidade. Existem diferentes subtipos de células imunes, e nosso entendimento acerca de quais desencadeiam o DM1 avança e traz consigo novas opções de tratamento para preservar as células-beta remanescentes após o diagnóstico da doença.

Essa é a proposta do alefacept, descrita em artigo com acesso livre no Journal of Clinical Investigation. Já utilizada para tratamento de psoríase em placas (outra doença que envolve auto-imunidade) há mais de 10 anos, a droga foi testada em DM1 com menos de 100 dias de diagnóstico. Por razões de segurança, a idade mínima para entrada no estudo (de nome T1DAL) foi de 12 anos.

Os números são pequenos: cerca de 30 pacientes recebendo a medicação e nem metade disso usando placebo. O protocolo era uma injeção intramuscular por semana durante 12 semanas, descanso de 12 semanas e então outras 12 injeções semanais.

Os pacientes foram acompanhados por dois anos no total, e a média da glicemia ao fim deste período foi idêntica. Frustração? Não exatamente: aqueles que receberam o alefacet usavam uma dose de insulina 30% menor, já que havia maior produção residual do próprio pâncreas, e a incidência de hipoglicemias graves caiu pela metade (uma a menos por mês). Não houve aumento de infecções oportunistas nem efeitos colaterais graves atribuíveis à droga. Os mais jovens responderam melhor.

Alefacept versus placebo no DM1

Por mais que não seja uma solução, o ensaio clínico prova o conceito de que é possível retardar a perda da produção de insulina modulando o sistema imune com segurança. Devem surgir novos testes envolvendo outros esquemas, doses e eventuais combinações. Cada hipoglicemia que se previne, cada retina que se preserve, cada rim funcionando quando chegar a verdadeira cura pode fazer toda a diferença. 

sábado, 25 de julho de 2015

O Cogumelo que Promete Emagrecer



Ganoderma lucidum é o nome científico do cogumelo lingzhi/Reishi (chinês: “erva de potência espiritual”), empregado na medicina tradicional chinesa há mais de dois mil anos. Depois de várias publicações sugerindo ação anti-diabética, um estudo que avaliou suas propriedades emagrecedoras ganhou destaque na Nature Communications do mês passado (acesso livre aqui).

Pesquisadores de Taiwan administraram extrato aquoso de G. lucidum junto com ração comum ou rica em gordura para camundongos. Observou-se diminuição no ganho de peso de animais que recebiam o extrato do fungo junto com alimentação gordurosa, de maneira dose-dependente (quanto mais extrato recebiam, menos engordavam).

O intrigante é que esses camundongos consumiam a mesma quantidade de calorias daqueles que não recebiam G. lucidum, e suas fezes não tinham maior quantidade de gordura ou de alimentos de modo geral. Não se tratava, portanto, de um inibidor de apetite, nem de um bloqueador de digestão. Na mesma publicação, os autores demonstraram menor expressão de genes responsáveis pela síntese de gordura.

Os efeitos notáveis do extrato do fungo
Além dos efeitos sobre o peso, o extrato melhorou (novamente de forma dose-dependente) os níveis de citocinas inflamatórias nos animais que recebiam muita gordura, chegando a níveis próximos dos que ingeriam ração normal. Os pesquisadores ainda observaram menor infiltração de macrófagos no fígado e no tecido adiposo dos camundongos que receberam G. lucidum junto com dieta gordurosa. Importante lembrar que a obesidade se associa a um estado crônico de inflamação discreta porém contínua, ao qual se atribui o aparecimento de uma série de doenças, do infarto ao câncer.

O extrato do fungo aumentou o nível de linfócitos T regulatórios, reduziu os de LPS (componente de células bacterianas que atinge a circulação e cujos níveis se associam com prejuízos à saúde), ácidos graxos e de glicemia, melhorando a sensibilidade à insulina. No intestino, promoveu mudanças benéficas na flora bacteriana: menos Firmicutes e Proteobacteria, mais Bacteroidetes.
O verdadeiro G. lucidum

O impacto sobre a microbiota intestinal parece ser importantíssimo. Os autores conduziram transferência de fezes e observaram redução no acúmulo de gordura no animal receptor quando o doador havia recebido G. lucidum. Para finalizar a publicação, purificaram o extrato em diferentes frações e identificaram qual era a responsável pelas ações anti-obesidade.


Trata-se de uma abordagem científica e racional buscando aproveitar o legado de observações (nem todas úteis) de milênios. Embora os resultados sejam empolgantes, a lógica também recomenda esperar estudos em humanos para observar os eventuais efeitos. Que venha mais uma alternativa para emagrecer num futuro próximo!