sábado, 4 de outubro de 2014

10 Histórias sobre a Flora Intestinal e o Emagrecimento



O assunto hoje é mais uma vez a “flora intestinal”. Nosso tubo digestivo é casa para 100 trilhões (mais que o dobro do número total de células de um adulto) de bactérias (e outros microrganismos), que começam a se instalar em nosso corpo pouco após o parto. O conjunto de genes de nossos “inquilinos” supera os nossos numa razão de 100:1. São quase mil espécies cuja investigação é complicada (muitas são difíceis de cultivar em laboratório).

Existe uma grande variabilidade na composição da microbiota de diferentes pessoas. Gêmeos idênticos possuem perfis muito semelhantes, ainda que morem a quase 1000 km de distância. Casais, mesmo com hábitos alimentares praticamente idênticos, são tão diferentes quanto um estranho qualquer na rua (e você pensando que era só tomar Yakult, hein?). Quando usamos antibióticos, há uma mudança que dura no máximo um mês, para em seguida voltarmos ao mesmo padrão anterior.

Indivíduos magros exibem um leque muito mais amplo de bactérias no intestino, enquanto os obesos possuem menor variedade. Essa diferença motivou uma série de estudos em animais para investigar a relação entre microbiota e o metabolismo. Eis alguns resultados intrigantes:

1 – Camundongos criados em ambiente livre de bactérias têm percentual de gordura muito menor, apesar de consumirem mais ração. Quando adultos, uma vez inoculados com bactérias, aumentam rapidamente o percentual de gordura e perdem massa magra, mesmo comendo 27% menos ração e aumentando o metabolismo basal. Houve aumento de glicemia e indução de resistência à insulina.

Menor acúmulo de gorduras nos animais sem bactérias (GF - germ free). Nota-se aumento da gordura quando eles são colonizados na vida adulta (CONV-D), quase equivalente aos camundongos usuais (CONV-R)

2- O mesmo estudo mostrou que a presença de bactérias dobra a capacidade intestinal de absorver glicose, além de dobrar a densidade de capilares necessários à sua circulação. A enzima (LPL) responsável por trazer gorduras da circulação para o nosso (incômodo) tecido adiposo teve sua atividade aumentada em mais de 100%.

3 – Um estudo chinês empregando a berberina, substância extraída de algumas espécies de plantas e capaz de inibir o crescimento de certas bactérias, levou ao menor ganho de peso (gráfico abaixo) em camundongos. Provocou mudança na microbiota dos animais e aumentou a expressão da FIAF (fasting-induced adipose factor). Esta é uma proteína capaz de inibir a LPL e, deste modo, reduzir a massa de tecido adiposo.



4 – A FIAF é tão importante que, quando o experimento número 1 foi realizado em animais geneticamente modificados para não expressar a proteína, não houve diferença no percentual de gordura entre aqueles expostos ou não expostos a bactérias.

5 – Quando camundongos criados em ambientes livre de germes são colonizados com a microbiota de obesos, eles atingem maior percentual de gordura do que quando eles recebem bactérias de magros.



6 – Colonizar camundongos com duas espécies de bactérias leva a um percentual de gordura maior do que quando se inocula apenas uma delas.

7 – Animais geneticamente modificados para não expressar o receptor intestinal Gpr41 se tornaram parcialmente resistentes ao ganho de massa gorda induzido pela colonização por bactérias, mesmo comendo a mesma quantidade de ração e exibindo menores níveis de hormônios inibidores do apetite – leptina e PYY. Sem Gpr41 no intestino, esses animas eram menos eficazes para extrair calorias da dieta e tinham trânsito intestinal mais acelerado. O nível de triglicérides no sangue era menor. Há um estudo em andamento para avaliar os efeitos de um carboidrato fermentável no intestino humano capaz de agir sobre o Gpr41. 



8 – A cirurgia bariátrica tem profundo impacto sobre a população de bactérias no intestino.

9 – O perfil da microbiota na infância pode predizer se a criança continuará com peso normal ou atingirá o sobrepeso.

10 - Dieta rica em gordura aumenta a proporção de bactérias Gram-negativas e a absorção de LPS, substância capaz de aumentar inflamação e induzir resistência à insulina.

A figura abaixo ilustra os principais mecanismos / diferenças entre a microbiota de obesos e magros.




Há poucos estudos em humanos (um demonstrou sucesso ao realizar transplante de fezes parareduzir resistência à insulina) e, embora exista uma grande expectativa quanto aos possíveis benefícios de manipular a microbiota intestinal para emagrecer ou tratar diabetes, esta ainda não é uma realidade prática. Cuidado para não gastar com picaretagens simplistas como “fórmulas” manipuladas de forma duvidosa com o objetivo audacioso de mudar a “flora” intestinal. O assunto é 100 trilhões de vezes mais complexo. 

3 comentários:

  1. Oi, Bom Dia Dr.Eduardo Quadros gostei da postagem sobre cirurgia bariátrica,pq meu sobrinho Marcelo Viana(Linhow) comentarista da rádio metropóle do time do bahia pretende fazer faculdade de jornalismo queria que o Senhor Dr.Eduardo Quadros vc fazer uma avaliação médica dele,por ser afrodescendente,mas é meu sobrinho que mais gosto Eliderval Viana( alemão in memorian) tipo assim meus irmãos tiveram o pé na cozinha,rsrs,beijos e Obrigada Pedagoga Ednara Viana.

    ResponderExcluir
  2. Um bom produto para reconstituir a flora intestinal é o Lacto Pro

    ResponderExcluir