sábado, 31 de agosto de 2013

Victoza: Esperança contra Alzheimer?

A demência de Alzheimer é um dos maiores flagelos desta época. Arrasa memórias, famílias e orçamentos de saúde. Trata-se da principal causa de demência, alvo de muitas pesquisas, mas ainda além de nosso entendimento quanto aos detalhes de suas causas e mecanismos. 

Os tratamentos disponíveis (sem grandes mudanças há 10 anos) têm eficácia que podemos chamar de “modesta” na melhor das hipóteses. Os últimos anos foram frustrantes: múltiplos estudos incapazes de demonstrar benefício com o uso de suplementos vitamínicos, hormônio feminino, ginkgo biloba ou ômega-3.  

Um dos fatores de risco para Alzheimer parece ser o diabetes mellitus tipo 2. Especula-se que certas regiões do cérebro se tornariam resistentes à ação da insulina, o que contribuiria para a progressão da doença.  A liraglutida (Victoza®) é capaz de penetrar a barreira entre o sangue e o sistema nervoso, onde poderia melhorar a ação da insulina e teoricamente prevenir ou atenuar o Alzheimer. Diante desta hipótese, o primeiro passo seria testá-la em animais de laboratório. 

Este passo já foi dado. Em 2011, pesquisadores irlandeses publicaram na revista The Journal of Neurosciences um experimento em que camundongos geneticamente predispostos à demência de Alzheimer receberam liraglutida por 8 semanas, ainda na fase inicial da doença (7 meses de idade). Os resultados foram animadores: melhora na função cognitiva e, após sacrificar as cobaias, o exame dos cérebros demonstrou melhora bioquímica e celular. 

Esta semana o mesmo grupo publicou em outro periódico (Neuropharmacology) novo estudo. Utilizando os mesmos tipos de animais, testaram a administração da liraglutida em fase mais avançada da doença (14 vs 7 meses de idade), novamente por dois meses. 

Os achados são um sopro de esperança: melhora na memória espacial, redução de 30% na inflamação e na quantidade de placas amiloides no cérebro (características do Alzheimer) e aumento de 50% na contagem de progenitores neuronais. As sinapses no hipocampo (região crítica para a memória) e no córtex também aumentaram. 

Em 2010 já haviam sido relatados dados que sugeriam melhora na plasticidade sináptica com o uso do Victoza. Na Inglaterra, está prestes a começar um ensaio clínico que acompanhará cerca de 200 pacientes (nenhum deles diabético) com doença de Alzheimer para avaliar sua resposta à liraglutida. A previsão de entrega dos dados é de junho de 2016. Até lá, não vamos nos esquecer desta possível reviravolta para os pacientes.