domingo, 3 de março de 2013

Desvendando a Dieta Mediterrânea


Esta foi a semana da dieta mediterrânea. A publicação de um artigo de impacto em uma das revistas de maior prestígio da comunidade científica (New England Journal of Medicine) inclinou todos os holofotes para o assunto. 

A dieta mediterrânea começou a ganhar evidência com uma pesquisa que começou no fim dos anos 50. O estudo dos sete países (Seven Countries Study) recrutou pacientes dos EUA, Finlândia, Holanda, Itália, Japão, Iugoslávia e Grécia, acompanhando-os durante décadas para tentar entender quais seriam os fatores de risco para doenças cardiovasculares. 

O estudo, além de confirmar a importância de variáveis como hipertensão arterial, colesterol elevado e tabagismo para o surgimento de doenças circulatórias, mostrou um curioso padrão geográfico. As mortes por coronariopatias eram muito mais comuns nos EUA e no norte europeu do que no sul da Europa (região mediterrânea), mesmo após descontar diferenças em relação à prevalência dos fatores de risco tradicionais.

Investigações adicionais levaram à identificação de um padrão alimentar descrito como “dieta mediterrânea”, o qual seria capaz de proteger os indivíduos contra infarto. Embora não haja uma descrição única de tudo o que inclui a dieta mediterrânea, ela poderia se resumir em um elevado percentual de frutas, vegetais, cereais integrais, grãos, sementes e azeite de oliva. Tipicamente se consome vinho tinto regularmente.  A dieta inclui quantidades pequenas a moderadas de peixes, aves e laticínios, com pouca carne vermelha.   

O estudo desta semana não foi o primeiro a observar benefícios com este tipo de alimentação. Em 2008, o British Medical Journal publicou uma meta-análise compilando os dados de 8 grupos de pacientes (mais de 500 mil pessoas avaliadas). Os resultados apontaram que a adesão à dieta mediterrânea reduziria a mortalidade (cardiovascular e total) em 9%, bem como diminuiria a incidência de doença de Parkinson, câncer e Alzheimer (em cerca de 13%).  

Existe plausibilidade biológica para os benefícios da dieta mediterrânea? A princípio sim, na medida em que ela exibe baixa quantidade de gordura saturada (identificada como vilã em inúmeras pesquisas), grande percentual de vegetais e boa quantidade de fibras, tradicionais protetores. Peixes enquanto fonte de proteína também não são novidade nas recomendações dietéticas.



 O que, de certo modo, surpreende, é a liberalidade no consumo do azeite de oliva, que é bastante calórico. Muita gente tem dificuldade de aceitar também o consumo diário de vinho tinto por motivos filosóficos, religiosos ou mesmo científicos (o abuso de álcool aumenta o risco cardiovascular, como você pode constatar aqui). 

Essa aparente transgressão traz consigo conceitos que são novos para muitas pessoas. Um deles é o de que existiriam “gorduras boas”. O óleo de oliva extra virgem é rico em gordura monoinsaturada, a qual seria capaz de reduzir o LDL (colesterol ruim), bem como outras substâncias que induzem a contração dos vasos sanguíneos e a formação de trombos. 

Outro conceito é o de que os radicais livres são importantes para o surgimento de uma série de doenças, e o combate a esses agressores (que se acumulam com a idade, tabagismo, dieta ocidental) auxilia na prevenção de doenças circulatórias e degenerativas. O curioso é que o uso isolado de certos antioxidantes, como a vitamina C ou vitamina E, é muito inferior ao consumo do alimento que contém as substâncias protetoras. O azeite de oliva e o vinho tinto são ricos em polifenóis, capazes de combater os radicais livres. 

O ESTUDO 

O estudo do NEJM avaliou mais de 7000 espanhóis, sendo 57% mulheres. Apenas pacientes com mais de 55 (homens) ou 60 (mulheres) anos puderam participar. A partir de outubro de 2003, foram randomizados para três dietas diferentes: mediterrânea com suplemento de azeite de oliva, mediterrânea com suplemento de sementes (nozes, avelãs e amêndoas – ricos em ômega-3, além de polifenóis) ou dieta com restrição de gordura.  Nenhum dos grupos teve recomendação de restrição calórica ou atividade física. 

Nos primeiros três anos, apenas os grupos de dieta mediterrânea recebiam avaliação nutricional individualizada a cada três meses. Só a partir de 2006, por uma mudança de protocolo, o grupo de dieta pobre em gordura passou a receber orientações com a mesma frequência (até então, recebiam apenas material impresso uma vez por ano).

Com o objetivo de confirmar a adesão à dieta, os pesquisadores dosaram hidroxitirosol urinário no grupo que recebia azeite de oliva e ácido alfa-linolênico sérico no grupo que recebia as sementes. Os participantes recebiam gratuitamente, a depender do grupo alocado, um litro de azeite de oliva por semana, 30g de sementes (15g nozes, 7,5g de avelãs e 7,5g de amêndoas) por dia ou brindes trimestrais (dieta pobre em gorduras). 

Nos grupos de dieta mediterrânea, não havia restrição no consumo de gordura; recomendava-se o uso abundante do azeite de oliva para cozinhar e temperar pratos. A alimentação deveria incluir ao menos duas ou três porções de frutas frescas (sucos eram permitidos); três ou mais porções de legumes; três ou mais porções semanais de peixes ou mariscos (sendo uma destas de peixes gordurosos); uma porção semanal de sementes ou nozes; preferir carnes brancas às vermelhas, e evitar carnes processadas (salsicha, hambúrguer); cozinhar ao menos três vezes por semana com tomate, alho e cebola. Foi liberado o consumo de até 300 mL/dia de vinho para homens (200mL para mulheres),  bem como a ingestão de nozes (sem sal e nunca após o jantar), ovos, peixes, mariscos, queijos magros, cereais integrais e chocolate com mais de 50% de cacau

As proibições ou recomendações negativas envolviam carnes vermelhas, manteiga ou margarina, massa folhada, cerveja ou refrigerantes, bolos, cookies, pudins, sobremesas industrializadas, doces e batata frita


Dieta mediterrânea do estudo: sofrito é um molho com cebolas, tomate, alho e azeite de oliva

Na dieta pobre em gorduras, as restrições, além daquelas da dieta mediterrânea, incluíam o azeite de oliva e as sementes, cujo consumo deveria ser reduzido ao mínimo. Por outro lado, era liberal em relação ao consumo de arroz, batatas e massas.

Após cerca de 5 anos, o grupo da dieta mediterrânea consumia não apenas mais azeite de oliva ou sementes, mas também peixes e legumes. A taxa de desistência do estudo foi o dobro no grupo da dieta pobre em gorduras (11,3% contra 4,9% na mediterrânea).

O grupo que seguiu a dieta Mediterrânea teve 30% menos doenças cardiovasculares, o que significa 3 eventos (infarto, derrame ou morte de causa cardiovascular) a menos para cada grupo de mil pacientes seguidos em um ano. Não houve diferença entre o grupo do azeite de oliva e o das nozes/amêndoas/avelãs. Após o ajuste para diferenças entre os grupos, deixou de existir diferença para infarto, mas sem alterar mortalidade ou a redução de AVC.

O estudo foi realizado em apenas um país, que por sinal é o maior produtor mundial de azeite de oliva (Espanha). Pacientes obesos e hipertensos aparentemente se beneficiaram mais da intervenção. Cabe salientar que o objetivo da pesquisa não foi emagrecer, mas prevenir doenças circulatórias. Os resultados são robustos, importantes e reforçam a recomendação da dieta mediterrânea como a melhor opção, no momento, para prevenção de doenças cardiovasculares. 

Um comentário:

  1. acredito que a intenção de uma dieta deveria ser essa, evitar problemas cardiovasculares, venho de uma família que se enquadra em diversas doenças, eis então a minha maior preocupação. Ótimo post, defendeu minha teoria que o azeite e o vinho são ótimos benefícios a saúde!

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