domingo, 27 de maio de 2012

Victoza Ganha Força Contra Obesidade

Mais um resultado para reforçar o que já é visto no dia-a-dia dos consultórios: a utilidade da liraglutida (Victoza®) para redução de peso. 

Semana passada foi apresentado no 19. Congresso Europeu de Obesidade (em Lyon, França) o resultado de um estudo que avaliou pacientes obesos que receberam Victoza durante um ano. As doses variaram de 1,2 mg até 3 mg por dia; nenhum paciente era diabético. 

A pesquisa dividiu os resultados de acordo com a resposta inicial ao medicamento. Aqueles que perderam pelo menos 5% do peso corporal após 12 semanas eram classificados como responsivos à medicação. Ao fim de um ano, este grupo (que representa 75% dos pacientes no estudo) perdeu, em média, 11,1kg. 

Não é pouca coisa. Isso representa 35,6% do excesso de peso, e começa a encostar nos resultados de longo prazo de cirurgias bariátricas. Mesmo o grupo "não-responsivo" perdeu em média 6 kg no fim de um ano. 

Some ao resultados acima a informação de que há vários concorrentes do Victoza em desenvolvimento (formulações semanais ou até anuais) e temos um cenário altamente otimista para o futuro próximo do tratamento da obesidade e do diabetes. 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Lipoaspiração Pode Aumentar Gordura Visceral

Um pequeno estudo brasileiro, publicado online no mês passado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, põe novamente em xeque a lipoaspiração. Desta vez a preocupação é com a gordura visceral.

Inúmeros estudos comprovam o papel nocivo do acúmulo de gordura visceral (gordura profunda, próxima aos órgãos abdominais), aumentando o risco de diabetes, distúrbios do colesterol e doenças cardiovasculares. A gordura subcutânea, entretanto, além de não se associar com essas morbidades, poderia ser até protetora.

Daí a preocupação com as consequências do ato de literalmente sugar a gordura sob a pele. O estudo brasileiro (que avaliou apenas 36 pacientes) detectou um aumento de 10% na gordura visceral já 4 meses após a lipoaspiração. Um dado de fato preocupante, que pode pesar na hora de enfrentar ou não a cirurgia. O lado bom da pesquisa: um grupo semelhante de pacientes evitou o aumento da gordura profunda mediante um programa de exercícios três vezes por semana (iniciado com dois meses de pós-operatório).

A "lipo" continua um procedimento bastante procurado (mais de 200.000 em 2011 nos EUA), mas carregando consigo alguns riscos de curto e, pelo visto, talvez de longo prazo. Esta pesquisa nacional traz mais dados para uma escolha consciente de médicos e pacientes.

domingo, 6 de maio de 2012

CUIDADO com o GOLPE da TESOFENSINA

Há poucas semanas recebi o e-mail de um PICARETA de uma farmácia de manipulação oferecendo o que seria uma "fantástica" oportunidade. Estaria vendendo a tesofensina, (quem acompaha o blog já conhece a substância) enviando até pelos Correios para outros estados (o sujeito é do Paraná). 

Fiquei surpreso, na medida em que imaginava que a medicação, embora promissora, ainda estivesse em período de testes. Perguntei sobre a origem, o mesmo disse que comprava "direto da fábrica". 

Uma breve pesquisa na Internet levou à detentora da patente, a dinamarquesa NeuroSearch. O próprio site da empresa alertava que a tesofensina ainda não fora comercializada. 

Com receio de fazer falsas acusações, entrei em contato com a companhia. A resposta veio direto do vice-presidente, como consta no print abaixo do e-mail que recebi. 

Não poderia ter sido mais claro. A substância ainda não foi testada em fase III, não foi aprovada por nenhuma agência regulatória e não está comercialmente disponível em nenhum lugar do MUNDO. 

Fraude em remédios para emagrecer não é novidade. Há inúmeros casos: femproporex em cápsulas "naturais", sibutramina encontrada em "suplemento de laranja". Caveat emptor (quem compra que cuide do que compra), diriam alguns. É impossível, entretanto, não se sensibilizar com inúmeros comentários no blog contendo depoimentos de pessoas que estariam usando tesofensina. 

Fiquem sabendo: não estão usando tesofensina coisa nenhuma. Quem prescreve é, no mínimo, ignorante. Quem vende é, no mínimo, mal-intencionado.

Nova Insulina a Caminho

Mais um post, mais uma novidade na Endocrinologia. O tema é de provocar calafrios em muita gente: insulina. 

A terapia com insulina existe há menos de 100 anos, mas já salvou incontáveis vidas de pessoas que teriam perecido precocemente caso houvessem nascido no passado. Segue evoluindo cada vez mais rápido, embora com alguns tropeços, como qualquer tecnologia (muitos lembram da rapidez com que a insulina inalatória da Pfizer entrou e saiu do mercado). 

Necessária em todos os diabéticos tipo 1 e em muitos do tipo 2, a insulina ainda traz muitos inconvenientes. Associa-se a um pequeno, mas consistente, ganho de peso. Ainda depende de agulhas, mesmo que cada vez menores, para aplicação (embora esteja começando a comercialização de insulina transdérmica sob pressão). 

Os diferentes tipos de insulina apresentam perfis distintos de hipoglicemia. Quem já sofreu um destes episódios de baixa de açúcar sabe o desespero que é. Tremor, suor frio, dor de cabeça, fome incontrolável. A descarga de adrenalina pode levar a arritmias, e nem sabemos quantos pacientes perdem a vida por hipoglicemias noturnas. 

Encontra-se em fase avançada de testes a isulina DEGLUDEC, patenteada pela Novo Nordisk. De absorção mais lenta e previsível, vem para brigar com a Lantus (insulina glargina) e a levemir (insulina detemir). 

A DEGLUDEC vem mostrando, nos estudos, absorção ainda mais lenta e concentrações mais estáveis que as insulinas no mercado. Além de reduzir o risco de hipoglicemia em 25% quado comparada à Lantus (que, por sua vez, causa bem menos oscilações que a NPH), permitiria aplicações em dias alternados em alguns pacientes.

Estamos diante de um avanço que atende às necessidade daqueles que viajam, mantêm rotinas variáveis e nem sempre se alimentam ou acordam no mesmo horário. Fica a torcida por um preço acessível e pelo desenvolvimento de outras novidades que facilitem a vida dos milhões de diabéticos.

sábado, 5 de maio de 2012

Orlistate: Risco Renal?

Embora o momento seja de "caça às bruxas" no tratamento farmacológico da obesidade, os leitores do blog devem ter percebido que a minha visão tem o viés oposto: reconhecer o benefício que alguns fármacos podem trazer para um grande número de pacientes. 

Isso não significa, entretanto, "baixar a guarda" contra potenciais efeitos colaterais de medicações novas ou antigas para a perda de peso. Por este motivo, comento um artigo (Ther Adv in Drug Safe. 2012;3(2):53-57) que sugere a relação entre o orlistate (Xenical®, Lipiblock®) e lesão renal. 

O orlistate é um inibidor da lipase pancreática. Reduz a digestão de gorduras, de modo que até 30% dos lipídios de uma refeição são eliminados nas fezes. Essa menor absorção leva à perda de peso, melhora do colesterol, da glicemia e até da pressão arterial. 

Como o orlistate permanece o tempo inteiro no tubo digestivo até ser eliminado, seus principais efeitos colaterais são intestinais: cólicas, flatulência e diarreia (por vezes constrangedora, oleosa) podem ser incômodos, mas não representam risco à saúde. 

Em 2011 especulou-se que o orlistate pudesse provocar hepatite aguda, mas como apenas 32 casos foram reportados nos EUA ao longo de 10 anos (enquanto milhões usavam o remédio), não se estabeleceu  relação de causa e efeito. Lá a droga é vendida sem receita, como aqui. 

É de se perguntar como uma substância que nem é absorvida e ainda emagrece faria mal aos rins. Vamos às explicações.

A gordura não digerida no intestino forma sabões ao reagir com o cálcio. Esta reação reduz o cálcio intestinal livre, o que facilita a absorção do oxalato. Com mais oxalato circulante, há maior deposição deste nos rins. 

Alguns relatos apontam que possa haver um risco de lesão renal aguda precipitada pela medicação. É óbvio que os pacientes que usam o orlistate geralmente já possuem fatores de risco para problemas renais: muitos são diabéticos, hipertensos, idosos que já apresentam doença renal prévia. A magnitude do risco também é pequena: as estimativas mais pessimistas seriam de 1% por ano. 

Nenhum motivo para pânico, mas os dados apontam para uma certa cautela no uso do orlistate em determinados perfis de pacientes. Fica a expectativa de novos estudos que quantifiquem melhor o risco de complicações renais ou, melhor ainda, de moléculas que tragam menos efeitos indesejados.