terça-feira, 5 de julho de 2011

Ferro e Diabetes


O ferro desfruta do status de um dos maiores fetiches nutricionais. Se determinado alimento é rico em ferro, logo ganha a reputação de “muito saudável.” Muita gente, quando se sente fatigada, pede por suplementos de ferro.

Anemia por deficiência de ferro existe, de fato. Só que talvez seja menos comum do que se imagine, e mais concentrada na população pediátrica, mulheres em idade fértil ou após cirurgia bariátrica.

Há décadas se sabe que a hemocromatose, doença genética caracterizada por acúmulo exagerado de ferro no organismo, aumenta o risco de diabetes. Nestes pacientes, ocasionalmente as sangrias melhoram ou até normalizam as glicemias.

Nesta edição (Julho 2011) do Diabetes Care, dois artigos ligam o consumo de ferro heme (derivado da carne vermelha) ao risco de desenvolver diabetes na gestação. As faixas mais elevadas de consumo se associam a uma chance 3 vezes maior de ter açúcar alto na gravidez (e todas as suas perigosas conseqüências).

Ferro em excesso induz radicais livres, que podem aumentar a resistência à insulina ao mesmo tempo em que reduzem a sua produção no pâncreas. Inúmeros passos do metabolismo da glicose envolvem o ferro.

A análise dos estoques de ferro nos diabéticos é complicada. A ferritina, tradicional medida das reservas corporais deste metal, encontra-se elevada durante quadros inflamatórios leves (ex: aquele induzido pela obesidade) ou graves (como nas freqüentes infecções associadas ao diabetes). Mais complexo ainda é o conceito de que, mesmo com estoques totais normais, o indivíduo pode ter aumento do “ferro catalítico”, que simplificadamente corresponde à porção deste elemento capaz de gerar radicais livres.

Há estudos em animais demonstrando melhora na glicemia reduzindo a quantidade de ferro através de dieta , sangrias ou quelantes (substâncias removedoras). Estes resultados foram obtidos sem desencadear deficiência de ferro.

De prático, fica a recomendação de evitar excessos de carne vermelha (por inúmeros outros motivos também) e suplementos desnecessários. Quem sabe daqui a alguns anos quelantes de ferro ou as medievais sangrias possam melhorar a vida dos diabéticos.

Um comentário:

  1. Henrique Belchior Pereira5 de julho de 2011 18:37

    Excelente artigo. Você, além de ser um Médico muito hábil, é também um escritor muito promissor e competente. Continue assim! Acho muito importante este tipo de blog, pois ele ajuda a diminuir o número de indivíduos ignorantes com relação os temas relacionados a saúde. Consequentemente, favorecendo a diminuição da incidência de certas enfermidades ocasionadas por falta de conhecimento.

    Parabéns, Dr. Eduardo Quadros Araújo.

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