quinta-feira, 28 de abril de 2011

Novo Link: Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica

Com muito atraso, acrescentei o link da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica ao blog. Engana-se quem imagina que os endocrinologistas, clínicos por formação, sejam contra a cirurgia. Na realidade, a minha experiência (e a de boa parte dos colegas) é de mais dificuldade em convencer quem precisa ser operado a enfrentar o procedimento do que o contrário.

O Brasil, comparado com outros países, pode se orgulhar da quantidade e da qualidade dos cirurgiões que realizam cirurgia bariátrica. Muitos planos de saúde cobrem integralmente o procedimento, um privilégio e tanto para os pacientes.

Espero em preve postar alguns textos relativos às diferentes cirurgias bariátricas e metabólicas. até lá, fica disponível o link para os interessados.

domingo, 17 de abril de 2011

HDL, o bom (e complicado) colesterol


[Este texto é baseado em um belíssimo artigo publicado pelo grupo de Lípides da Disciplina de Endocrinologia da FMUSP, na edição de dezembro de 2010 dos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia.]

De catedráticos acadêmicos a vendedores de churrasquinho, de crianças obesas a idosos hipocondríacos, todos falam sobre colesterol. Todos temem o colesterol. Colesterol rima com infarto, derrame, tragédias. É natural que muitos se surpreendam com a existência de um “bom” colesterol.

Para quase todos os pacientes e um número imenso de médicos, o conhecimento pouco avança a partir daí. O LDL é o mau colesterol, vilão que precisa ser reduzido a níveis mínimos (embora, sendo o colesterol um constituinte essencial para membranas celulares e matéria-prima de hormônios, permaneça alguma dúvida de quão baixo deveria ser o alvo). O HDL, bom colesterol, deve ser elevado a todo custo.

Estudos clássicos, publicados desde a década de 80 e reproduzidos em diversas populações, demonstram relação inversa entre níveis de HDL e risco cardiovascular. Sabe-se ainda que 50% do nível do bom colesterol dependem da genética do indivíduo; os outros 50% são determinados pela quantidade de exercícios físicos, tabagismo, peso, consumo de álcool e alimentação.

O HDL tem ação anti-inflamatória, reduz a formação de trombos (entupimentos) na circulação, dilata os vasos e reduz a oxidação do LDL na parede arterial (se o LDL já é ruim, quando oxidado fica ainda pior). Além disso, o HDL remove colesterol de diferentes tecidos e transporta ao fígado para ser excretado na bile e nas fezes. Tudo de bom, hein?

O HDL medido representa uma soma de subpopulações diversas quanto à densidade e conteúdo de proteínas. Ainda não é sabido, entretanto, se algum destes subgrupos seria mais importante para as suas ações benéficas. Também não existe um método de dosar a remoção de colesterol periférico que o HDL realiza em determinado indivíduo (e que nem sempre se correlaciona com o nível total de HDL).

Complicado? E que tal descobrir que algumas mutações raras geram relações inesperadas entre HDL e problemas circulatórios?

Um exemplo intrigante é a mutação ApoA-I Milão. A proteína ApoA-I é um dos constituintes do HDL. Esta mutação, cujo nome deriva da região onde foi detectada, se associa com níveis baixíssimos de HDL (< 20mg/dL), mas risco cardíaco menor que o da população geral. Alguns modelos animais com mutações surpreendem ao gerar camundongos com HDL alto e risco cardiovascular aumentado.

Que tal então uma medicação que aumente o HDL em mais de 60%? A empolgação durou até 2007, quando foram publicados dados que mostravam que o fármaco (torcetrapib) era incapaz de deter o avanço da aterosclerose ou prevenir doenças cardiovasculares. Pior: aumentava a mortalidade!

Há outros fármacos que induzem elevações mais modestas no HDL (estatinas, ácido nicotínico), mas com proteção cardiovascular bem documentada. Fica a esperança de que, num mar de enzimas e vias metabólicas, as pesquisas sobre lípides esclareçam os papéis deste bom colesterol e tragam novas opções para prevenção e tratamento de infartos e derrames.

sábado, 2 de abril de 2011

Hormônio de Tireóide: pela manhã ou à noite?


Prescrever hormônio de tireóide (levotiroxina) é fácil. Difícil é o paciente seguir diariamente a rotina de tomar um comprimido em jejum e esperar ao menos meia hora até se alimentar. A situação complica quando outros remédios demandam as mesmas exigências, ou interferem com a absorção da droga. Não é à toa que quase um terço dos que têm hipotiroidismo não estão bem controlados.

Alguns pesquisadores já propuseram a administração de levotiroxina em horários alternativos, já que o importante é o intervalo entre a ingestão da medicação e a refeição seguinte, independente da hora do dia. Um estudo holandês de 2010 com 90 indivíduos mostrou melhor controle da doença com administração noturna. As explicações possíveis incluem maior acidez gástrica (necessária para absorver o hormônio) à noite, bem como menor motilidade intestinal.

Os dados permitem que pacientes que acordam pouco antes de se alimentar mudem o horário da medicação sem prejuízo ao tratamento. Talvez até com melhor controle. Um pouco mais de liberdade para quem tem hipotiroidismo.