quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Victoza: Milagre ou Avanço na Perda de Peso?

A matéria de capa da revista VEJA anunciou que havia uma nova medicação para perder peso que “parecia até milagre”. Este novo remédio seria “mais potente que sibutramina” e “quase sem efeitos colaterais”.

Muitos colegas endocrinologistas se revoltaram com o texto, considerando-o tendencioso e sensacionalista. A própria divulgação médica do Victoza (liraglutida) não havia sido tão audaciosa.

O Victoza é tão bom mesmo? Quem deve ou pode usá-lo? Para responder a estas perguntas, precisamos dar algumas voltas.

O desenvolvimento do Victoza foi precedido pelo reconhecimento décadas atrás da importância do intestino como órgão endócrino. Além de conter uma quantidade impressionante de células nervosas, o sistema digestivo também é capaz de, em contato com o alimento, produzir substâncias que atuam sobre inúmeros órgãos e sistemas. Destas observações surgiu o conceito do “efeito incretina”.

Qual o princípio do efeito incretina? A administração endovenosa de glicose provoca uma liberação de insulina 50% inferior àquela estimulada por uma ingestão de glicose que leve ao mesmo perfil de glicemia. Ou seja, o contato da glicose (e de outros nutrientes) com o intestino promove a liberação de hormônios (incretinas) que incrementam a produção de insulina, sendo responsáveis por metade do volume de sua secreção após a alimentação.
O efeito incretina - a administração oral de glicose provoca maior estímulo à produção de insulina

Mais estudos demonstrariam que a principal incretina seria o GLP-1, produzido nas células distais do intestino delgado e no cólon. Embora alguns diabéticos tenham concentrações de GLP-1 ainda preservadas, sua ação encontra-se seriamente diminuída.

O que poderia representar uma enorme frustração transformou-se em esperança quando novas pesquisas deixaram claro que, quando expostos a concentrações elevadas (acima daquelas vistas em indivíduos normais) de GLP-1, os diabéticos voltavam a produzir maior quantidade de insulina, restaurando em grande parte a fisiologia normal do controle glicêmico. O mesmo resultado foi obtido com substâncias que, embora diferentes do GLP-1, fossem capazes de estimular seu receptor. Um exemplo destas substâncias é o exenatide, disponível no mercado há alguns anos, mas de aplicação limitada por necessidade de duas injeções por dia.

O Victoza nada mais é do que uma tentativa de copiar um hormônio natural do organismo, o GLP-1. A diferença de 3% entre os dois tem um motivo: o GLP-1 humano é degradado em poucos minutos, enquanto a liraglutida dura 24h, permitindo dose única diária.

Liraglutida: as modificações em relação ao GLP-1 natural se encontram em verde

O que há de especial no Victoza? Há razão de tanto estardalhaço?

Não há dúvidas de que o Victoza representa um enorme progresso no tratamento do diabetes. O medicamento melhora a função das células-beta, aumentando a produção de insulina apenas quando a glicemia está elevada.

Além disso, é capaz de inibir o apetite, retardar o esvaziamento do estômago, reduzir muito discretamente a pressão arterial e o nível de triglicérides após a refeição. O efeito sobre o esvaziamento do estômago é uma das explicações para a ocorrência de náuseas no início do tratamento. O Victoza reduz o colesterol total e o LDL (o mau colesterol); também reduz a PCR (proteína C reativa), um marcador de risco cardiovascular.

Em comparação com diferentes antidiabéticos (inclusive o exenatide), a liraglutida se mostrou mais potente em reduzir a glicemia, com incidência muito baixa de hipoglicemia. Sua semelhança com o GLP-1 natural faz com que menos de 10% dos pacientes desenvolvam anticorpos contra o medicamento. O exenatide, por sua vez, estimula a formação de anticorpos em mais de 40% dos pacientes, sendo que, quanto maior a concentração destes anticorpos, menor a eficácia do medicamento.

Victoza proporciona maior redução da glicemia do que a glimepirida, um potente medicamento para diabetes

Em ratos, a liraglutida induziu lesões pré-cancerosas e até tumores medulares de tireóide. Este efeito é atribuído à maior expressão do receptor do GLP-1 nas células C tireoidianas de roedores, em comparação às de primatas e humanos. Quando administrada a macacos em doses 60 vezes maiores às habituais, durante 20 meses, não produziu qualquer alteração. Nos 2.700 pacientes que receberam Victoza em ensaios clínicos, nenhum desenvolveu carcinoma medular de tireóide.

Não para por aí. A administração do Victoza após infarto melhora a função cardíaca (sim, há receptores de GLP-1 no miocárdio). Diante destes dados, pesquisadores canadenses testaram iniciar liraglutida (em doses muito maiores às recomendadas, diga-se de passagem) sete dias antes de induzir infarto em camundongos. Resultado: menor área infartada e maior sobrevida. O benefício foi inclusive superior às cobaias que receberam metformina e alcançaram igual controle glicêmico e peso. O Victoza estimulou a expressão de genes protetores para o coração. Há estudos em andamento avaliando o potencial benefício de liraglutida quando administrada agudamente na ocorrência do infarto.

A empolgação diminui quando o assunto é perda de peso. Embora maravilhoso para o diabetes, a potência da liraglutida como emagrecedor é moderada, na melhor das hipóteses. Quando administrada na dose de 3mg por dia (lembrando que o custo ultrapassa 300 reais/mês para a dose de 1,2mg!) durante um ano a indivíduos obesos, o Victoza levou a uma perda adicional de 5,8kg quando comparado à dieta mais atividade física. Nesta dose, houve redução de 15% da massa gorda após cinco meses; um quarto dos pacientes, entretanto, não alcançou a perda de 5% do peso. Quando usado na dose de 1,2mg durante 20 semanas, a perda de peso foi apenas 2kg maior do que à alcançada com dieta e exercício. A pressão arterial caiu 12 mmHg, um dado tranquilizador diante do trauma gerado pela sibutramina e seu potencial de risco cardiovascular para alguns pacientes.
Efeito da liraglutida para perda de peso

Em relação à obesidade, o Victoza é um passo tímido diante do que está por vir. Encontram-se em fase de testes em roedores moléculas que são desenvolvidas como uma quimera entre diferentes hormônios. Há combinações do GLP-1 com glucagon, GIP, hormônios de tireóide e até hormônios femininos. Os resultados são impressionantes.

Há relatos de perda de peso média superior a 20% do peso corporal total em pouco tempo, com segurança, mediante uma combinação de menor apetite e maior metabolismo. Um dos líderes destas pesquisas foi premiado no último Congresso Americano de Diabetes, em San Diego.Efeito do co-agonista GLP-1-glucagon em roedores: observem que a perda de 30% do peso corpóreo se dá em menos de um mês

Diante destes avanços emergentes, é seguro afirmar que as previsões de que em 2050 o mundo teria uma prevalência de obesidade de 50% estão equivocadas, na medida em que ignoram os avanços farmacológicos. Também podemos especular que os indivíduos mais jovens da atual geração talvez testemunhem o desaparecimento ou grande redução da realização de cirurgias bariátricas, bem como de complicações do diabetes tipo 2. As mesmas previsões valem para a obesidade mórbida, que deve se tornar uma curiosidade histórica tanto quanto o escorbuto ou as cirurgias para tratamento de gastrite.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Metformina Previne Câncer de Fígado em Cirróticos


A hepatite C é uma doença crônica que pode levar à morte por cirrose ou câncer de fígado. Suas opções de tratamento são caras, trabalhosas (injeções semanais por meses) e nem sempre eficazes. Frequentemente as medicações não alcançam resposta, sendo o vírus responsável por inúmeras mortes anualmente.

Muitos pacientes com hepatite C são diabéticos. Alguns estudos já haviam demonstrado que tanto o vírus pode prejudicar o metabolismo de glicose quanto a própria resistência à insulina poderia favorecer a evolução da doença hepática. Um autêntico círculo vicioso.

A edição de agosto do Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism traz uma boa notícia para 180 milhões de portadores de hepatite C (dados mundiais). Um grupo francês testou a metformina em dezenas de pacientes com diabetes e cirrose pelo vírus, baseado em trabalhos que apontavam menor risco de câncer nos diabéticos que usavam a medicação. Sabe-se ainda que a metformina reduz a resistência à insulina.

Os resultados foram impressionantes, com redução de 80% (!) no risco de carcinoma de fígado e morte por cirrose ou necessidade de transplante. E pensar que sempre houve medo de se prescrever metformina para cirróticos!

É bem verdade que casos mais graves não participaram do estudo, menos de 100 pacientes usaram a medicação e não houve grupo que recebesse placebo. Ainda assim, motivo de alegria, esperança e de abertura de uma nova janela entre a Endocrinologia e a Gastroenterologia / Hepatologia.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Emagrecer Aumenta a Testosterona


No meio de tantos anúncios de suplementos, fórmulas e injeções para aumentar a testosterona, pouco se fala de um método natural e muito eficaz para fazê-lo: emagrecer. Isso mesmo, a perda de peso, seja mediante exercícios físicos, dieta ou cirurgia, faz subir a concentração do hormônio masculino.

Mais do que um achado laboratorial, esta elevação se correlaciona com melhora na função sexual. A prática esportiva pode aumentar a testosterona agudamente em até 30%. Os dados não são novos (publicados há mais de 5 anos), mas ganharam destaque numa revisão deste mês sobre testosterona e diabetes do Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism.

Embora não faltem motivos, talvez este convença alguns homens quanto à importância da perda de peso. As namoradas e esposas agradecem.

domingo, 14 de agosto de 2011

Cuidado com o Excesso de Chá


Muitos pacientes me perguntam do que podem abusar na sua alimentação. Minha resposta é de que, em exagero, até água faz mal.

A edição de agosto do Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism traz uma confirmação desta ideia. Relata-se o caso de uma americana do estado da Georgia que, durante décadas, consumiu litros de chá preto por dia, imaginando fazer um bem para a sua saúe. Ignorava, entretanto, o alto teor de flúor da bebida, cujos efeitos se manifestaram após a sobrecarga do consumo por quase toda a vida.

Em baixas concentrações, o flúor protege contra as cáries. Acima de um determinado limite, põe o indivíduo sob risco de fluorose. A fluorose é uma doença que se manifesta através de formação de osso de má qualidade, calcificações dolorosas e ossificação de tendões e ligamentos. Nos dentes, pode levar a manchas marrons características.

Esta americana desenvolveu acentuada cifose e sofreu durante mais de uma década desnecessariamente com terríveis dores articulares. Os sintomas se foram após seis meses sem consumir chá.

Este caso deve servir como mais uma evidência no combate ao popular, mas ignorante, adágio que irracionalmente repete que tudo que vem da natureza faz bem. A diferença entre o remédio e o veneno muitas vezes é apenas uma questão de dose, algo difícil de medir em chás, sementes ou folhas. Ninguém precisa abandonar seu chazinho, mas nada de excessos.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Zonisamida - Mais uma Opção para Emagrecer



A zonisamida foi lançada como um anticonvulsivante, embora seja usada no tratamento da dor crônica, prevenção de enxaqueca e como estabilizador de humor. É vendida nos EUA, Ásia e Europa há mais de 10 anos. Sua ação sobre a epilepsia parece ser explicada pela atuação em canais celulares de sódio e cálcio.


A Orexigen (mesmo laboratório do Contrave®) patenteou a associação de bupropiona com zonisamida (sob o nome de Empatic®), ambos de liberação prolongada. Alguns estudos especulam ação da zonisamida sobre o paladar, o que reduziria o apetite.



Um artigo publicado no JAMA em 2003 mostrou que a zonisamida isolada levou à perda de 9,4% do peso total (contra 1,8% do placebo), com boa tolerância. A associação de bupropiona com zonisamida promoveu redução de até 7,5% do peso total e foi superior ao uso de qualquer das duas drogas isoladamente.



A combinação zonisamida com bupropiona seria uma alternativa interessante para aqueles pacientes intolerantes à sibutramina ou que apresentem contra-indicações à medicação. Fica a expectativa quanto à confirmação de segurança e eficácia desta nova opção para perder peso.

sábado, 9 de julho de 2011

Gastrina: opção "caseira" para o diabetes?


Será que santo de casa não faz milagre? A gastrina é um hormônio velho conhecido (cai até no vestibular), estimulador da produção de ácido no estômago. Seus níveis sobem quando nos alimentamos ou em resposta ao uso de medicações que reduzem a acidez gástrica (ex: omeprazol).

Um hormônio mais importante para a Gastroenterologia do que para a Diabetologia, a princípio. Ao menos até 2005, quando estudos começaram a demonstrar a capacidade da gastrina de regenerar as células produtoras de insulina no pâncreas (células-beta). Depois disso, trabalhos em animais mostraram redução da glicemia quando administrado lansoprazol (que eleva a gastrina).

E não é que este veterano brilhou em um artigo publicado no Endocrinology de Maio deste ano? Os autores aplicaram gastrina em ratos submetidos à ressecção prévia de 95% do pâncreas e observaram efeitos entusiasmantes.

Além da redução da glicemia (de 436 para 280 mg/dL), comprovou-se aumento da replicação e menor degradação das células-beta. A empolgação deve ser contida diante do conhecimento de que as células-beta de ratos têm mais facilidade para se reproduzir do que as humanas. Ainda assim, fica a esperança de que este "santo de casa" ajude na cura do diabetes.

NMU: mais um para fechar o cerco contra a obesidade


Enquanto algumas "autoridades" seguem fazendo previsões absurdas, sugerindo que "daqui a x anos 90% da população será obesa", eu acredito que a obesidade está com os dias contados. Os avanços da farmacologia e da engenharia de alimentos provavelmente farão dos atuais casos meras curiosidades histórias (como o escorbuto já é hoje).

Eu vos apresento um novo alvo potencial para auxílio na perda de peso: a neuromedina U (NMU). A edição de maio do periódico Endocrinology traz um estudo sobre a administração em animais desta substância.

Artigos prévios já demonstraram que camundongos com deficiência de NMU desenvolvem obesidade, enquanto aqueles que hiperexpressam a substância são magros e hipofágicos (comem pouco). Também já se sabia que a administração da substância no sistema nervoso central reduz o apetite e aumenta o gasto calórico, levando à perda de peso.

O passo seguinte foi testar se a injeção periférica teria o mesmo efeito. Os autores demostraram redução do apetite, aumento do metabolismo (e da temperatura) e perda de peso nos animais testados. A glicemia também melhorou.

Não se trata do ovo de Colombo. O aumento de temperatura preocupa, afinal na década de 30 o dinitrofenol (DNP) surgiu como solução para aumentar o metabolismo e resolver a obesidade. O resultado, já descrito aqui no blog, foram muitas mortes por hipertermia e colapso cardiovascular.

O empolgante é ver que a ciência está cercando a obesidade em múltiplas frentes. Inúmeros mecanismos diferentes são testados e muitos tratamentos potenciais deverão chegar ao mercado nos próximos anos. Bem-vinda ao time, NMU!

terça-feira, 5 de julho de 2011

Ferro e Diabetes


O ferro desfruta do status de um dos maiores fetiches nutricionais. Se determinado alimento é rico em ferro, logo ganha a reputação de “muito saudável.” Muita gente, quando se sente fatigada, pede por suplementos de ferro.

Anemia por deficiência de ferro existe, de fato. Só que talvez seja menos comum do que se imagine, e mais concentrada na população pediátrica, mulheres em idade fértil ou após cirurgia bariátrica.

Há décadas se sabe que a hemocromatose, doença genética caracterizada por acúmulo exagerado de ferro no organismo, aumenta o risco de diabetes. Nestes pacientes, ocasionalmente as sangrias melhoram ou até normalizam as glicemias.

Nesta edição (Julho 2011) do Diabetes Care, dois artigos ligam o consumo de ferro heme (derivado da carne vermelha) ao risco de desenvolver diabetes na gestação. As faixas mais elevadas de consumo se associam a uma chance 3 vezes maior de ter açúcar alto na gravidez (e todas as suas perigosas conseqüências).

Ferro em excesso induz radicais livres, que podem aumentar a resistência à insulina ao mesmo tempo em que reduzem a sua produção no pâncreas. Inúmeros passos do metabolismo da glicose envolvem o ferro.

A análise dos estoques de ferro nos diabéticos é complicada. A ferritina, tradicional medida das reservas corporais deste metal, encontra-se elevada durante quadros inflamatórios leves (ex: aquele induzido pela obesidade) ou graves (como nas freqüentes infecções associadas ao diabetes). Mais complexo ainda é o conceito de que, mesmo com estoques totais normais, o indivíduo pode ter aumento do “ferro catalítico”, que simplificadamente corresponde à porção deste elemento capaz de gerar radicais livres.

Há estudos em animais demonstrando melhora na glicemia reduzindo a quantidade de ferro através de dieta , sangrias ou quelantes (substâncias removedoras). Estes resultados foram obtidos sem desencadear deficiência de ferro.

De prático, fica a recomendação de evitar excessos de carne vermelha (por inúmeros outros motivos também) e suplementos desnecessários. Quem sabe daqui a alguns anos quelantes de ferro ou as medievais sangrias possam melhorar a vida dos diabéticos.

Insulinas e Ganho de Peso


A insulina é essencial para o tratamento do diabetes tipo 1, sendo muitas vezes necessária também no tipo 2. Um de seus efeitos colaterais é o ganho de peso. Este é um dos motivos do medo de insulina apresentado por muitos pacientes.

Quanto mais apurado o controle da glicemia (e maior a dose de insulina), maior o ganho de peso. Estudos de tratamento intensivo do diabetes com insulina demonstram ganho de cerca de 5kg em um ano. Alguns pacientes, sobretudo as mulheres mais jovens, deliberadamente reduzem ou omitem doses de insulina para tentar contornar este efeito colateral. O resultado já se sabe: maior incidência de complicações.

Nem todas as insulinas são iguais neste aspecto. A insulina detemir, em numerosos estudos, mostrou menor ganho de peso quando comparada à NPH ou à glargina. Ainda não se sabem em detalhes as causas desta diferença.

Na edição de julho do Diabetes Care, um estudo inglês com 23 pacientes portadores de diabetes tipo 1 demonstrou menor ganho de peso com insulina detemir (-2,4kg após 16 semanas, quando comparada à NPH). O controle glicêmico não diferiu entre os grupos. O estudo demonstrou menor ingestão calórica (cerca de 160 kcal a menos por dia) sob uso de detemir.

Há quem sugira que o efeito diferenciado da insulina detemir se deva à ação mais seletiva no fígado, reduzindo a síntese de gordura periférica, ou por efeitos sobre o metabolismo basal. O mesmo estudo mostrou elevação do polipeptídeo pancreático, um hormônio intestinal que reduz o apetite.

Diante da enorme prevalência de obesidade entre os diabéticos, os resultados são importantes. Perda média de 2,4kg é significativa e deve ser levada em consideração no tratamento do diabetes.

domingo, 8 de maio de 2011

Anticoncepcionais Derivados da Progesterona: Há Risco para o Coração?


Infarto é algo muito raro em mulheres jovens. Dos 30 aos 34 anos, a probabilidade de uma mulher sofrer um ataque cardíaco é de apenas uma em 500 mil a cada ano. Entre os 40 e 44 anos, o risco passa a uma para cada 50mil.

Sabendo-se que hormônios femininos influenciam colesterol, triglicérides e fatores de coagulação, sempre existiu o receio de que anticoncepcionais aumentassem o risco de doenças cardiovasculares. Os estudos são controversos e alguns sugerem que os anticoncepcionais combinados (estrógeno + progestágeno) possam aumentar a chance de infarto, sobretudo nas fumantes.

Uma meta-análise (artigo que compila dados de muitos estudos, aumentando o poder estatístico) publicada em abril no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism avaliou o risco de infarto associado ao uso de anticoncepcionais contendo apenas progestágenos. Reunindo informações de seis ensaios, concluiu que as pílulas derivadas de progesterona nem previnem nem aumentam a ocorrência de doença cardíaca.

A discussão feita pelos autores é muito interessante, salientando o menor efeito sobre fatores de coagulação por parte dos progestágenos, além de baixa (talvez sem importância clínica) repercussão sobre pressão arterial e lípides. Fazem a ressalva, todavia, da piora da sensibilidade à insulina após iniciar as medicações.

Ainda vejo entre colegas e pacientes muito medo de anticoncepcionais; às vezes se esquecem do quanto repercute na vida de alguém uma gestação na hora errada. O resultado deste estudo é favorável e tranqüilizador para quem os prescreve e para quem usa.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Novo Link: Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica

Com muito atraso, acrescentei o link da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica ao blog. Engana-se quem imagina que os endocrinologistas, clínicos por formação, sejam contra a cirurgia. Na realidade, a minha experiência (e a de boa parte dos colegas) é de mais dificuldade em convencer quem precisa ser operado a enfrentar o procedimento do que o contrário.

O Brasil, comparado com outros países, pode se orgulhar da quantidade e da qualidade dos cirurgiões que realizam cirurgia bariátrica. Muitos planos de saúde cobrem integralmente o procedimento, um privilégio e tanto para os pacientes.

Espero em preve postar alguns textos relativos às diferentes cirurgias bariátricas e metabólicas. até lá, fica disponível o link para os interessados.

domingo, 17 de abril de 2011

HDL, o bom (e complicado) colesterol


[Este texto é baseado em um belíssimo artigo publicado pelo grupo de Lípides da Disciplina de Endocrinologia da FMUSP, na edição de dezembro de 2010 dos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia.]

De catedráticos acadêmicos a vendedores de churrasquinho, de crianças obesas a idosos hipocondríacos, todos falam sobre colesterol. Todos temem o colesterol. Colesterol rima com infarto, derrame, tragédias. É natural que muitos se surpreendam com a existência de um “bom” colesterol.

Para quase todos os pacientes e um número imenso de médicos, o conhecimento pouco avança a partir daí. O LDL é o mau colesterol, vilão que precisa ser reduzido a níveis mínimos (embora, sendo o colesterol um constituinte essencial para membranas celulares e matéria-prima de hormônios, permaneça alguma dúvida de quão baixo deveria ser o alvo). O HDL, bom colesterol, deve ser elevado a todo custo.

Estudos clássicos, publicados desde a década de 80 e reproduzidos em diversas populações, demonstram relação inversa entre níveis de HDL e risco cardiovascular. Sabe-se ainda que 50% do nível do bom colesterol dependem da genética do indivíduo; os outros 50% são determinados pela quantidade de exercícios físicos, tabagismo, peso, consumo de álcool e alimentação.

O HDL tem ação anti-inflamatória, reduz a formação de trombos (entupimentos) na circulação, dilata os vasos e reduz a oxidação do LDL na parede arterial (se o LDL já é ruim, quando oxidado fica ainda pior). Além disso, o HDL remove colesterol de diferentes tecidos e transporta ao fígado para ser excretado na bile e nas fezes. Tudo de bom, hein?

O HDL medido representa uma soma de subpopulações diversas quanto à densidade e conteúdo de proteínas. Ainda não é sabido, entretanto, se algum destes subgrupos seria mais importante para as suas ações benéficas. Também não existe um método de dosar a remoção de colesterol periférico que o HDL realiza em determinado indivíduo (e que nem sempre se correlaciona com o nível total de HDL).

Complicado? E que tal descobrir que algumas mutações raras geram relações inesperadas entre HDL e problemas circulatórios?

Um exemplo intrigante é a mutação ApoA-I Milão. A proteína ApoA-I é um dos constituintes do HDL. Esta mutação, cujo nome deriva da região onde foi detectada, se associa com níveis baixíssimos de HDL (< 20mg/dL), mas risco cardíaco menor que o da população geral. Alguns modelos animais com mutações surpreendem ao gerar camundongos com HDL alto e risco cardiovascular aumentado.

Que tal então uma medicação que aumente o HDL em mais de 60%? A empolgação durou até 2007, quando foram publicados dados que mostravam que o fármaco (torcetrapib) era incapaz de deter o avanço da aterosclerose ou prevenir doenças cardiovasculares. Pior: aumentava a mortalidade!

Há outros fármacos que induzem elevações mais modestas no HDL (estatinas, ácido nicotínico), mas com proteção cardiovascular bem documentada. Fica a esperança de que, num mar de enzimas e vias metabólicas, as pesquisas sobre lípides esclareçam os papéis deste bom colesterol e tragam novas opções para prevenção e tratamento de infartos e derrames.

sábado, 2 de abril de 2011

Hormônio de Tireóide: pela manhã ou à noite?


Prescrever hormônio de tireóide (levotiroxina) é fácil. Difícil é o paciente seguir diariamente a rotina de tomar um comprimido em jejum e esperar ao menos meia hora até se alimentar. A situação complica quando outros remédios demandam as mesmas exigências, ou interferem com a absorção da droga. Não é à toa que quase um terço dos que têm hipotiroidismo não estão bem controlados.

Alguns pesquisadores já propuseram a administração de levotiroxina em horários alternativos, já que o importante é o intervalo entre a ingestão da medicação e a refeição seguinte, independente da hora do dia. Um estudo holandês de 2010 com 90 indivíduos mostrou melhor controle da doença com administração noturna. As explicações possíveis incluem maior acidez gástrica (necessária para absorver o hormônio) à noite, bem como menor motilidade intestinal.

Os dados permitem que pacientes que acordam pouco antes de se alimentar mudem o horário da medicação sem prejuízo ao tratamento. Talvez até com melhor controle. Um pouco mais de liberdade para quem tem hipotiroidismo.

terça-feira, 22 de março de 2011

Mais um Gol da Metformina


A metformina é uma medicação antiga, barata e segura para o tratamento do diabetes mellitus. De quebra, induz um pouco de perda de peso. Tradicionalmente prescrita para combater a resistência à insulina, tem demonstrado capacidade até de ajudar na preservação do pâncreas.

Numa época de "caça às bruxas", em que todo medicamento é responsabilizado por infarto, derrame, infecções, alergias, esquizofrenia-em-saci-pererê etc., não pode passar batido um artigo sobre a metformina. Publicado na última edição do Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, ele avalia a influência do medicamento sobre as células do adenocarcinoma de útero. Este representa um tumor bastante frequente, mais ainda em obesas.

Analisando em laboratório a capacidade de células tumorais invadir tecidos e provocar metástases (sim, já existem sistemas artificias para medir isso), verificou-se que o soro de mulheres tratadas por 6 meses com metformina era diferente do mesmo soro antes do tratamento. Após o uso da medicação, tinha a propriedade de reduzir a invasividade das células malignas.

O estudo é coerente com outros artigos, que relatam menor incidência de câncer nos diabéticos que usam o fármaco. Mais um gol da (veterana) metformina.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Aleitamento, Alimentos Sólidos e Risco de Obesidade


Ainda há controvérsias sobre o momento de introduzir alimentos sólidos para o bebê. Um dos motivos para a dúvida consiste no receio de que progredir a alimentação muito precocemente poderia aumentar o risco de obesidade.

Um pesquisa realizada em Boston, publicada este mês no periódico Pediatrics, avaliou 847 crianças, sendo que um terço delas não havia sido amamentada (também foram alocadas para este grupo as que mamaram por menos de quatro meses). O grupo do aleitamento exclusivo teve uma prevalência de obesidade bem inferior aos 3 anos de idade: 7%, contra 13% daqueles que receberam fórmulas lácteas.

No grupo dos bebês amamentados, a época de introdução de alimentos sólidos não interferiu no risco de obesidade. Entre os que não mamaram no peito, ou o fizeram por menos de 4 meses, a introdução precoce dos alimentos sólidos (antes dos 4 meses) elevou em 6 vezes o risco de desenvolver obesidade.

A discussão sobre amamentação é complexa e envolve aspectos hematológicos, imunológicos, culturais e emocionais. O estudo, embora com um número limitado de crianças, fornece mais um subsídio em favor do aleitamento materno exclusivo ao menos até os 4 meses de idade.

sábado, 12 de março de 2011

"Com Todo o Respeito...o Senhor Está Acima do Peso"


Certas coisas não deixam de ser importantes pelo fato de serem simples. Um estudo publicado no mês passado na prestigiosa revista médica Archives of Internal Medicine avalia a importância de o médico falar ao paciente que ele está acima do peso.

Pode parecer banal, mas o artigo revela que menos da metade daqueles com sobrepeso (IMC > 25) é avisada do problema pelo médico. Entre os obesos (IMC > 30), um terço sai da consulta sem referência ao excesso de peso.

O mesmo estudo mostra que o simples fato de comunicar que o sujeito está com alguns quilos a mais dobra a probabilidade de o paciente tentar perder peso. Para quem de fato quer o bem daquele que está com sobrepeso, nada de papas na língua e excesso de formalidades: "com todo o respeito...o senhor está acima do peso!"

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

GH - herói ou vilão?


Inúmeras pesquisas mostram que a deficiência de hormônio do crescimento (GH) está associada à obesidade abdominal. Muitos estudos mostram redução da gordura abdominal com a reposição do hormônio. Sabe-se, por outro lado, que na acromegalia (rara doença em que há níveis exagerados de GH) ocorre aumento da incidência de hipertensão, infarto e derrame.

Para ajudar a esclarecer (ou confundir ainda mais) o tema, foi publicado no periódico Science Translational Medicine (do grupo de revistas Science) um artigo que relata o acompanhamento de uma comunidade andina por 22 anos.

Nesta população, há uma frequência desproporcional de deficiência de GH (na realidade, eles possuem GH, mas o corpo não consegue obter seus efeitos). Por motivos geográficos, a mobilidade é baixa, de modo que os deslocamentos dos indivíduos são incomuns.

Entre os 100 indivíduos insensíveis ao GH (com baixa estatura), não houve sequer um caso de diabetes; diagnosticou-se apenas um câncer, não-fatal. Quando avaliados 1600 parentes que viviam no mesmo local, mas com funcionamento normal do GH, a incidência de diabetes foi de 5%; a de câncer, 17%. A ocorrência de derrames foi tão rara que não permitiu análise estatística.

O estudo mais abre hipóteses do que traz conclusões. Os autores elocubram que drogas bloqueadoras do GH poderiam, no futuro, trazer impacto semelhante aos redutores de colesterol.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

ANVISA Ameaça Proibir Tratamento da Obesidade


A organização chamada ANVISA não tem limites. Com a truculência governamental de praxe, apresenta à sociedade a medida "benéfica" e "protetora" de PROIBIR o tratamento da obesidade.

A notícia não pode ser amenizada. Dizer que sobra o Xenical (mais de 200 reais por mês, com resultados muito limitados em perda de peso) é patético. Quantos casos de sobrepeso se transformarão em obesidade? Quantos pré-diabéticos se tornarão diabéticos, com custos financeiros, de saúde e emocionais? Quanto aumentará a depressão feminina, a insatisfação com o próprio corpo, a insegurança?

Proibir um indivíduo de decidir qual substância ele quer ingerir é IMORAL. A cada dia que passa o Brasil se aproxima de um cenário do livro 1984, de George Orwell. Se a ANVISA se julga autoridade máxima em todas as áreas da Medicina, que sugira que não se usem os medicamentos. Quem confiar na sua enorme sapiência e benevolência o fará. Só não condenem milhões de brasileiros à infelicidade.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

SBD preocupada com Glibenclamida

Há alguns meses, este blog alertou sobre os riscos da glibenclamida para diabéticos. Um post que deveria ter sido escrito muitos meses antes (talvez anos se o blog já tivesse nascido).

A SBD, um pouco atrasada, demonstrou num comunicado oficial sua preocupação com os riscos associados ao uso da medicação. Foi nomeado um grupo técnico para analisar "quais as posições mais adequadas", seja lá o que isso perigosamente possa significar.

Torço para que, embora com alternativas claramente superiores, não venham com sugestão de subitamente proibir o remédio (consumido aos milhões), correndo o risco de prejudicar mais do que ajudar os diabéticos do país. Já bastam as trapalhadas da ANVISA.

Diretrizes Americanas de Nutrição


Aí vai o link para as novas diretrizes americanas de nutrição, voltadas para o público geral:

http://www.health.gov/dietaryguidelines/dga2010/DietaryGuidelines2010.pdf

Reforça recomendações importantes, embora não traga grandes novidades. Nunca é demais lembrar que a populacão como um todo precisa reduzir o consumo de sal (notadamente através do consumo de industrializados), gorduras saturadas ou trans, açúcar e cereais refinados.

O material enfatiza escolhas saudáveis, como frutas, verduras e legumes (compondo metade do prato), cereais integrais, carnes magras, laticínios desnatados e gorduras insaturadas.

Peca pela ingenuidade ao dizer que cada indivíduo consegue controlar o quanto come e o quanto gasta. Ignora o imenso papel dos genes na regulação do apetite, na aptidão e volição em relação ao exercício físico.

Que fique claro, por outro lado, que a genética não é justificativa para escolhas inconsequentes na alimentação.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Dica de Site - Ginecologia Fácil


Mais uma sugestão de site: Ginecologia Fácil. Tenho orgulho de dizer que um dos autores, Dr. Renato Tomioka, foi um brilhante interno à minha época de residente do HC-USP. Leiam, aproveitem e compartilhem!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mulher Sem Falta


Este post serve para divulgar o site Mulher Sem Falta (patrocinado pela indústria farmacêutica), cujo intuito é conscientizar as mulheres da necessidade de rastrear e tratar doenças da tireóide. O site é bem montado e rico em informações sobre o tema. Fica a dica para homens e mulheres (bem como o link aqui no Blog da Obesidade).

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Abuso de Álcool e Risco Cardiovascular


Em novembro foi publicado um estudo interessante no British Medical Journal, cujo objetivo era avaliar o impacto do abuso de álcool sobre o risco cardiovascular. A hipótese era de que os indivíduos que consomem álcool regularmente, em menores quantidades, ao longo da semana, teriam menor risco de infarto do que aqueles que concentram toda a bebedeira em um ou dois dias.

Os autores resolveram apelar: coletaram os dados de três cidades francesas (Toulouse, Strasburgo e Lille) e compararam com os de Belfast, na Irlanda do Norte. Até o mais desinteressado leitor é capaz de supor o óbvio: existe uma diferença significativa no tipo de bebida. Na Irlanda consomem-se mais cervejas e destilados, enquanto há maior proporção de vinho na França.

Vieses à parte (ou não), a compilação de dados de mais de 9 mil homens ao longo de 10 anos (todos entre 50 e 59 anos de idade, sem diagnóstico de doença cardíaca) revelou que a quantidade de álcool que se consome num final-de-semana em Belfast fica entre o dobro e o triplo da ingestão na França para o mesmo período.

Os pesquisadores definiram como “abuso” de álcool o consumo de 50g de etanol em 24h; isto equivale a 3 latas de cerveja, meia garrafa de vinho ou 3 doses de destilado. Os homens que abusavam do álcool tinham o dobro do risco de apresentar infarto.

Um belo de um alerta para os “tios” que adoram exagerar na cerva do churras ou desmaiar com o whisky de graça no casamento da sobrinha. Muita (mas muita mesmo) calma com esse papo de “álcool faz bem”.