domingo, 7 de novembro de 2010

Glibenclamida e Risco Cardiovascular


Há menos de dois meses, foi retirada do mercado brasileiro a rosiglitazona, medicamento para diabetes. Capaz de elevar o LDL (colesterol ruim), o Avandia (nome comercial) era suspeito de elevar o risco de eventos cardiovasculares (infarto, angina, derrame cerebral) em alguns estudos. Já era pouco prescrito pelos endocrinologistas, e sua proibição não provocou grandes sobressaltos à prática médica.

Há muito tempo alguns endocrinologistas também têm reduzido (alguns eliminado) a prescrição de outro medicamento para diabetes: a glibenclamida (conhecida como glyburide nos EUA). Desenvolvida em 1966 e incluída na lista de medicações essenciais da OMS (o único outro comprimido para diabetes presente na lista é a metformina), esta substância tem despertado enorme preocupação quanto ao potencial de aumentar o risco e a letalidade de doenças cardiovasculares naqueles que o empregam.

Uma recente publicação no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism reafirma este receio com a glibenclamida. Embora o estudo não seja randomizado (os pacientes não foram aleatoriamente alocados para cada medicação), traz dados que preocupam quem prescreve ou usa glibenclamida.

Analisando mais de 1300 pacientes admitidos para cuidados intensivos na França, a mortalidade naqueles que vinham usando a glibenclamida antes da internação foi quase o triplo (7,5% x 2,7%) quando comparada aos que usavam outras drogas da mesma classe (glimepirida ou gliclazida). Esta diferença se manteve quando os dados foram ajustados para fatores que pudessem enviesar o estudo.

Outros estudos clínicos e sobretudo fisiológicos sustentam estes achados. A glibenclamida tem, quando comparada a moléculas similares, maior ação sobre o músculo cardíaco. Um dos seus efeitos sobre o coração consiste em piorar a resposta do miocárdio à escassez de oxigênio, potencialmente estendendo a área do infarto.

Além do risco cardiovascular, a glibenclamida também está associada à hipoglicemia. No UKPDS (um dos mais importantes estudos já realizados em diabetes tipo 2), sua taxa de hipoglicemia foi o dobro da clorpropamida. Curioso que a clorpropamida foi retirada do mercado, dentre outros motivos, pelo risco de hipoglicemias.

A glibenclamida é fornecida pelo SUS e, para muitos, é a única opção para o tratamento do diabetes. Embora seja radicalmente contra qualquer proibição de uso ou comercialização de substâncias, torço para que a difusão desta informação permita um melhor tratamento para os milhões de diabéticos deste país.

2 comentários:

  1. Realmente a glibenclamida, assim como a clorpropamida, tende a cair em desuso entre os endocrinologistas, no entanto enquanto as autoridades reguladoras não se manifestarem categoricamente estas medicações continuarão a ser prescritas - eventualmente ainda vejo receitas de Diabinese! Só lembrando que a rede pública, pelo menos aqui em Salvador/BA, já disponibiliza a gliclazida de liberação prolongada (MR) de 30 mg - abraço, Joaquim Custódio Jr.

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  2. Valeu pelo brilhante (como sempre!) comentário, Joaquim!
    Diabinese eu só vi uma receita depois que vim para Salvador, mas glibenclamida é o que mais tem. Duro é atender aquela paciente do interior, que precisa de dose mais alta e não pode comprar nem glimepirida nem gliclazida...tristeza, viu?
    Abraço, meu velho!

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