domingo, 19 de setembro de 2010

Selênio e Tireóide


Este post tem o objetivo de acautelar algumas pessoas que andam empolgadas com a relação entre selênio e doenças da tireóide. Recentemente ouvi de uma professora de Nutrição que a mesma recomendava duas castanhas-do-pará por dia para todo paciente com hipotiroidismo. Teria ela razão?

O selênio é fundamental para o metabolismo dos hormônios da tireóide, sendo necessário para o funcionamento de muitas enzimas dentro e fora da glândula. Alguns estudos demonstram menor concentração de selênio em indivíduos com bócio (aumento do volume da tireóide).

Quando partimos para a prática, entretanto, as evidências clínicas são frustrantes. Alguns relatos isolados de regressão da tireoidite com uso do selênio (Thyroid 2009), mas quando grupos de pacientes são tratados, boa parte não melhora ou até segue o curso natural da doença, com deterioração progressiva da produção de hormonal. Ademais, o excesso de selênio (cujo limite superior de ingesta diária fica em 400mcg/dia) pode se associar à queda nos níveis de T3 e prejuízos à fertilidade, lesões em unhas e cabelos.

O selênio desempenha importante papel nas funções reprodutivas e imunológicas do organismo. Longe de mim querer erguer uma "cruzada anti-selênio", muito pelo contrário. Não há, entretanto, evidência que justifique o uso indiscriminado de selênio para pacientes com hipotiroidismo. Ainda mais quando isso passa pela ingestão de um alimento que possui mais de 600kcal para cada 100g e que detém o maior percentual de gorduras saturadas (25% das gorduras) dentre todas as castanhas e nozes existentes.

Vale lembrar que, a depender do local de plantio (e da concentração de selênio do solo), uma mesma castanha (ou feijão, ou qualquer alimento contendo selênio) pode ter até o dobro da quantidade do elemento em comparação com outra idêntica, mas de outra procedência. O consumo diário recomendado de selênio fica entre 55 e 70mcg por dia, sendo que uma castanha oferece de 200-400mcg do elemento.

Cuidado com certas promessas e "verdades" sem embasamento científico.

Para saber mais:

Effects of selenomethionine supplementation on selenium status and thyroid hormone concentrations in healthy adults - Combs Jr GF et al - Journal of Clinical Nutrition 2009

Deficiências de Minerais - Profa. Dra. Silvia M. Cozzolino (2007)

2 comentários:

  1. Dr. Eduardo, achei seu blog por acaso, e realmente é extremamente completo, realista e bem embasado. Tenho hipo há 8 anos e somente agora resolvi começar uma reeducação alimentar, e me vejo descobrindo coisas que deveria e não deveria comer, mas o que me deixa pasma é ao fato de nunca nenhum endocrino ou nutricionista terem me alertado quanto ao uso de alguns alimentos que não são favoráveis ou nem fazem efeito para quem tem essa doença. Ficamos realmente a vontade na internet e acho muito válido procurarmos por nós mesmos. Apenas temos que filtrar e pesquisar a fundo com bases científicas para termos certezas. Fico triste e receosa em relação a formação de alguns profissionais e também quanto ao profissionalismo dos mesmos, que em alguns casos trabalham de forma pouco eficaz, tratando pacientes como gado. Agradeço as informações do blog. Abraço.

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    1. Muito obrigado, Carla! Concordo com cada palavra sua, embora seja triste admitir.

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