quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Avandia Proibido no Brasil

Como era de se esperar, a Anvisa cancelou esta semana o registro no Avandia (rosiglitazona) no Brasil. Conforme discutido em post prévio, há o receio de que a medicação possa estar associada a riscos cardiovasculares superiores aos de outros medicamentos para diabetes.
Este fato era de conhecimento dos endocrinologistas há algum tempo, e poucos prescreviam Avandia. Aos que eventualmente estejam em uso, sugiro que procurem o médico responsável pelo acompanhamento.

sábado, 25 de setembro de 2010

Rosiglitazona Suspensa na Europa e Restrita nos EUA


Na última quinta-feira (23 de setembro de 2010), a EMEA suspendeu a comercialização de medicamentos contendo rosiglitazona (Avandia, Avandamet) na Europa. Simultaneamente, o FDA impôs exigências regulatórias para a sua prescrição nos Estados Unidos. Na segunda-feira a Anvisa decide qual o futuro da droga no Brasil.
Alguns estudos sugerem que, embora reduza a glicemia, a rosiglitazona possa aumentar o risco de doenças cardiovasculares. Nada tão surpreendente para uma medicação que eleva triglicérides e LDL (colesterol ruim). Os dados são preocupantes quando se considera o tremendo aumento no risco cardíaco imposto já pelo próprio diabetes (o diabético que nunca teve doença coronariana tem o mesmo risco de infartar que um paciente não-diabético que já sofreu um infarto).
Com a eventual saída da rosiglitazona, a pioglitazona (Actos) ficaria como única opção no mercado dentro de sua classe (tiazolidinedionas). Conhecendo a ANVISA, qual deve ser a decisão?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Tesofensina - Mais uma Perspectiva para Emagrecer


A história da tesofensina repete um clássico da Medicina: uma medicação testada para determinada doença se mostra benéfica para o tratamento de uma outra. Originalmente estudada para tratar doençade Parkinson e Alzheimer (sem bons resultados), a tesofensina levou um subgrupo de pacientes obesos à perda de 4% do peso sem qualquer orientação de dieta ou atividade física.


À semelhança da sibutramina, a tesofensina inibe a recaptação da noradrenalina, serotonina e dopamina no cérebro. Promove inibição do apetite e redução da saciedade. Ainda não se sabe seu efeito sobre o metabolismo.


Num estudo com a dose de 0,5mg, em 6 meses, mais da metade (53%) dos pacientes alcançouperda superior a 10kg. Este resultado corresponde ao dobro da redução obtida com medicações atuais para a obesidade. Não bastasse a maior potência, análises de composição corporal demonstraram que a perda se deve sobretudo à perda de gordura. O mesmo ensaio mostrou que, junto com a perda de peso, houve queda da glicemia e melhora no colesterol e nos triglicérides.


Os efeitos colaterais são semelhantes à sibutramina: boca seca, insônia, dor de cabeça, constipação. Apesar de a dose de 0,5mg não ter elevado a pressão arterial, houve aumento da frequência cardíaca de 5 a 8 bpm. Um dado preocupante, sem dúvida.


A tesofensina parece ser uma sibutramina mais potente. Fica a esperança de que essa potência não se acompanhe de efeitos colaterais mais intensos. Ainda faltam mais estudos para que hajasegurança de lançar a droga ao mercado. Seria um sucesso tremendo e um baita auxílio para os obesos.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Cetilistate - Nova Droga para Obesidade


O orlistate não é nenhuma novidade no tratamento da obesidade. Comercializado sob os nomes de Xenical ou Lipiblock,trata-se de droga eficaz, porém de modesta potência, para o tratamento dos obesos.

Sua grande vantagem é a segurança. O orlistate não é absorvido em níveis significativos pelo organismo, agindo apenas no intestino.Quando tomado até 1 hora após a refeição, reduz em 30% a absorção de gorduras, que são eliminadas nas fezes.

Aí que surge o problema: alguns pacientes se queixam de diarreia. Outros passam pelo vexame de, ao levantar da poltrona, notar uma tremenda mancha de óleo, eliminada sem que se percebesse, provocando um constrangimento capaz de afastar definitivamente o sujeito do tratamento.

O cetilistate, droga em fase avançada de estudo para a obesidade, age do mesmo modo que o orlistate. Tem potência semelhante. Até o nome é quase igual. Pequenas diferenças na estrutura da molécula, entretanto, fazem com que o cetilistate não promova tanta coalescência entre as micelas de gordura.Essa propriedade reduz a formação de óleos e diminui a incidência de efeitos colaterais.

Para quem se traumatizou com o orlistate, o cetilistate pode ser uma esperança para a perda de peso com segurança e sem vexames.

Perspectivas no Tratamento da Obesidade

Hoje tive o prazer de receber a última edição dos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia e ver o nome de um grande amigo. Dr André Murad Faria, estampado no principal artigo da revista, entitulado "Progressos recentes e novas perspectivas em farmacoterapia da obesidade".

Escrito com a orientação dos nossos ex-professores da USP, trata-se do melhor texto médico que li no último ano. Não poderia deixar de comentá-lo no blog.

Dada a extensão e profundidade, reservarei um post para cada medicamento ou associação em estudo. Alguns já bem adiantados, prestes a ocupar prateleiras de farmácias, capas de revistas e muitos simpósios médicos.

Espero que os leitores do blog aproveitem com a mesma intensidade que eu aproveitei o ano de convivência com o brilhante colega. Só para estimular, deixo um gráfico do referido "paper", que mostra como os novos medicamentos podem ter potência muito superior à sibutramina ou orlistate.


domingo, 19 de setembro de 2010

Selênio e Tireóide


Este post tem o objetivo de acautelar algumas pessoas que andam empolgadas com a relação entre selênio e doenças da tireóide. Recentemente ouvi de uma professora de Nutrição que a mesma recomendava duas castanhas-do-pará por dia para todo paciente com hipotiroidismo. Teria ela razão?

O selênio é fundamental para o metabolismo dos hormônios da tireóide, sendo necessário para o funcionamento de muitas enzimas dentro e fora da glândula. Alguns estudos demonstram menor concentração de selênio em indivíduos com bócio (aumento do volume da tireóide).

Quando partimos para a prática, entretanto, as evidências clínicas são frustrantes. Alguns relatos isolados de regressão da tireoidite com uso do selênio (Thyroid 2009), mas quando grupos de pacientes são tratados, boa parte não melhora ou até segue o curso natural da doença, com deterioração progressiva da produção de hormonal. Ademais, o excesso de selênio (cujo limite superior de ingesta diária fica em 400mcg/dia) pode se associar à queda nos níveis de T3 e prejuízos à fertilidade, lesões em unhas e cabelos.

O selênio desempenha importante papel nas funções reprodutivas e imunológicas do organismo. Longe de mim querer erguer uma "cruzada anti-selênio", muito pelo contrário. Não há, entretanto, evidência que justifique o uso indiscriminado de selênio para pacientes com hipotiroidismo. Ainda mais quando isso passa pela ingestão de um alimento que possui mais de 600kcal para cada 100g e que detém o maior percentual de gorduras saturadas (25% das gorduras) dentre todas as castanhas e nozes existentes.

Vale lembrar que, a depender do local de plantio (e da concentração de selênio do solo), uma mesma castanha (ou feijão, ou qualquer alimento contendo selênio) pode ter até o dobro da quantidade do elemento em comparação com outra idêntica, mas de outra procedência. O consumo diário recomendado de selênio fica entre 55 e 70mcg por dia, sendo que uma castanha oferece de 200-400mcg do elemento.

Cuidado com certas promessas e "verdades" sem embasamento científico.

Para saber mais:

Effects of selenomethionine supplementation on selenium status and thyroid hormone concentrations in healthy adults - Combs Jr GF et al - Journal of Clinical Nutrition 2009

Deficiências de Minerais - Profa. Dra. Silvia M. Cozzolino (2007)

sábado, 18 de setembro de 2010

FDA veta entrada da Lorcaserina no mercado


Por nove votos a cinco, nesta quinta-feira 16/09/10, os consultores do FDA negaram a entrada da Lorcaserina (já discutida em outro post) no mercado. Argumentam que a perda peso não é muito grande (pouco acima de 5% do peso total, embora um subgrupo atinja 10-15% de perda) e que não há estudos sobre o benefício para comorbidades associadas. Demandam, além de estudos com obesos diabéticos e com doenças cardiovasculares, mais dados de segurança quanto a eventuais neoplasias e doenças valvares induzidas pelo fármaco.
Mais uma atitude autoritária, mais uma celebração ao Estado Orwelliano que se parece seja nos EUA, Brasil ou União Europeia. Por que não deixar cada médico e cada paciente decidir o que fazer com o próprio corpo? Quais os limites do controle de governos e agências reguladoras?
Sob o mesmo argumento, deveriam proibir cigarro, açúcar, esportes radicais, vale-tudo, viagens rodoviárias. Não existe vida sem risco. O que é benéfico ou interessante para uma pessoa pode não ser para outra.
Saem no prejuízo as centenas de milhões de obesos no mundo.