segunda-feira, 28 de junho de 2010

Alerta aos seguidores de dietas ricas em gorduras e pobres em carboidratos


Vira e mexe as dietas ricas em gorduras e pobres em carboidratos voltam à moda, e a onda da "dieta metabólica" reacende o tema. Sempre houve uma má-vontade da comunidade científica contra essas dietas.
De início, achavam que, por ter muita gordura, não funcionaria. Vieram estudos e mostraram que conseguem reduzir o peso. Além de induzirem cetose (utilização de corpos cetônicos, derivados das reservas de gorduras, como fonte de combustível), o que acontece é que a quantidade de calorias ingeridas acaba sendo baixa, dada a monotonia da dieta. Exige-se a semi-exclusão de carboidratos.
Depois disseram que conduziria à dislipidemia. Vieram outros estudos e mostraram que além de não ser deletéria ao colesterol, reduz os triglicérides mais que a dieta balanceada.

O método, entretanto, não é uma panacéia. Nunca se mostrou superior a outras dietas em eficácia nem em adesão em estudos maiores. Não tinha nenhuma característica especial, já que os participantes acabam fazendo dieta hipocalórica também (ficam enjoados de comer apenas gorduras, de modo que o consumo diário se torna limitado).

A peça que não encaixa(va) era o contra-senso diante de estudos ancilares, da década de 60-70, que mostravam indiscutivelmente uma maior incidência de doenças e mortes cardiovasculares quando se aumentava a ingestão de gordura. Em seres humanos é difícil avaliar isto, pois estudos para avaliar dieta são caros, trabalhosos e observar uma diferença na mortalidade cardiovascular poderia levar décadas diante da elevada taxa de desistência em QUALQUER dieta.

Uma parte da resposta veio de pesquisadores que testaram dieta rica em gorduras e pobre em carboidratos em ratos predispostos à aterosclerose. O resultado foi assustador: esta dieta levou à formação de o DOBRO de placa de gordura nas artérias das cobaias, apesar de níveis semelhantes de colesterol. A pesquisa levou a novas linhas de estudo que estão identificando fatores de risco para doença cardiovascular até então desprezados ou desconhecidos, como os níveis de ácidos graxos circulantes (que aumenta nessa dieta) e a concentração de celulas progenitoras do endotélio (células que revestem internamente os vasos, que se encontram reduzidas nas dietas high fat, low carb).

Diante dos fatos, acho mais sensato para quem quer perder peso tentar dieta balanceada em macronutrientes, ou ao menos ter noção dos riscos que corre com high-fat, low-carb. Eis algumas referências de artigos publicados em revistas médicas de impacto, não em livros de auto-ajuda:


1-A look at the Low-Carbohydrate Diet - Smith SR - NEJM 361;23-25; Dec 2009

2-Vascular Effects of a Low-Carbohydrate High-Protein Diet - Foo SY et al - Proc Natl Acad Sci USA 2009 Aug

terça-feira, 15 de junho de 2010

Petiscos da Copa


Esse sofrimento para vencer a Coréia do Norte foi um choque de realidade para quem torce para o Brasil. O UOL aproveitou e aplicou outra injeção de “vida real” ao descrever as calorias dos principais petiscos dessa época de Copa do Mundo. Aí vai uma lista modificada:


Amendoim – 160kcal em 30g (sem contar o excesso de sal)

Coxinha de frango – 211 kcal

Bolinho de bacalhau (30g) – 159 kcal

Pastel de queijo (40g) – 120 kcal

Batata chips (30g) – 160 kcal

Castanha de caju (100g) – 574 kcal


Para amenizar:


Azeitona – 60kcal em 30g

Pão sueco ou pão sírio integral – 100kcal em 30g

Homus de grão de bico – 40kcal em 30g

Rolinho de peru (3 fatias) com cream cheese light e pepino – 50kcal


Não quero bancar o radical, mas sugiro que reservem tira-gosto especial para jogo especial. Esse 2x1 teve um saborzinho de chuchu mesmo.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sibutramina fora da rede pública paulista




É com extrema irritação que sou obrigado a postar a notícia de hoje abaixo, de autoria do UOL:


Pacientes que utilizam a rede pública do município de São Paulo não podem mais ser tratados com sibutramina, medicamento que atua como inibidor de apetite e teve prescrição restringida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em março deste ano.
A droga faz parte de uma categoria de medicamentos chamada B2, da qual fazem parte também os anorexígenos (inibidores da fome) derivados da anfetamina, como afepramona e fenproporex. Esses remédios só podem ser vendidos mediante apresentação de uma receita azul com numeração específica, fornecida aos médicos pela Vigilância Sanitária de cada região.
Em um documento obtido pelo UOL Ciência e Saúde, a Área Técnica de Assistência Farmacêutica, subordinada à Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, informa que, diante de estudos que mostram os riscos do medicamento a pacientes com problemas cardiovasculares, não autoriza a confecção de talonários de notificação de receita B2 para prescrição de sibutramina.
O texto também diz que os fármacos utilizados no tratamento da obesidade e do sobrepeso “não têm lugar na terapêutica” e que “a Administração não pode e não deve propiciar o acesso a produtos farmacêuticos que não trazem benefícios aos pacientes, como é o caso dos supressores de apetite de ação central”.
Embora a sibutramina não tenha sido proibida pela Anvisa, a política para obtenção da receita B2 é definida por Estados e municípios. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, a restrição é exclusiva à sibutramina, e não a outros remédios para emagrecer.
Endocrinologistas ligados à Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade) temem que a medida seja estendida para outras regiões, o que pode prejudicar um número ainda maior de pacientes da rede pública que sofrem de sobrepeso ou obesidade, condições que comprovadamente aumentam o risco de diversas doenças. “A sibutramina não é uma panaceia, mas funciona para certos pacientes que não conseguem perder peso só com dieta e exercícios”, diz a médica Rosana Radominski, presidente da Abeso.
Restrições
Desde o início do ano, agências reguladoras de medicamentos vêm fechando o cerco à sibutramina. O motivo foi a publicação do estudo Scout (Sibutramine Cardiovascular Outcomes Trial), uma pesquisa que contou com cerca de 10 mil pacientes de 55 anos ou mais e história de doença cardiovascular ou diabetes tipo 2. Eles foram avaliados ao longo de seis anos. Os resultados indicaram que o risco de desenvolver enfermidades cardiovasculares (como derrame e infarto) era 16% maior nos pacientes que utilizaram o remédio em relação aos tratados com placebo.
Com base no estudo, a EMA (European Medicine Agency), agência regulatória da União Europeia, decidiu proibir a comercialização da sibutramina em todo o bloco. Os EUA foram menos rigorosos e o FDA (Food and Drug Administration), que regula a venda de remédios e alimentos no país, incluiu novas contraindicações na bula do produto, para evitar a prescrição do remédio a pacientes com história de doença cardiovascular e/ou diabetes tipo 2. A conduta, no Brasil, foi a mesma, e a Anvisa enviou um alerta às entidades médicas.
No entanto, no fim de março, a Anvisa decidiu reclassificar a sibutramina, transferindo a droga da categoria C1 (que prevê a retenção de receita pelas farmácias) para a B2, referente aos psicotrópicos anorexígenos. Além do receituário ser mais controlado (os médicos têm de ir a um endereço específico para obter a numeração e mandar confeccionar o talonário), os profissionais não podem prescrever mais do que 30 dias de tratamento. Além disso, o produto vem com a tarja preta que alerta para o risco de dependência - a sibutramina é um antidepressivo que estimula a saciedade e, segundo os médicos, não provoca dependência.
Consumo abusivo
O objetivo da mudança, segundo a assessoria de imprensa da Anvisa, foi não apenas proteger a saúde dos pacientes, mas coibir a venda indiscriminada da sibutramina no país. O primeiro relatório do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados, concluído este ano pela agência, indica que a população brasileira consumiu, em 2009, quase 2 toneladas da droga. O aumento mais marcante foi observado antes do verão. No mesmo período, o consumo de anfepramona chegou a 3 toneladas.
O relatório também aponta que o profissional que mais receitou a sibutramina no período foi um especialista em medicina do tráfego. Não existe restrição legal para que um médico dessa especialidade receite um remédio para emagrecer, mas o fato, considerado pouco ético, foi encaminhado ao Conselho Federal de Medicina.
Questionamentos
Médicos ouvidos pelo UOL Ciência e Saúde concordam que o abuso na prescrição de medicamentos deva ser contido. Mas acreditam que a medida, estimulada por alguns médicos pouco criteriosos, acabe prejudicando os pacientes que realmente precisam desse tipo de droga.
A presidente da Abeso afirma que mesmo os anorexígenos conhecidos por provocar tolerância, como a anfepramona, às vezes são a única opção para tratar certos casos – por exemplo, quando o paciente precisa emagrecer rápido porque vai ser submetido a uma cirurgia e a obesidade aumenta o risco de complicações. Ela lembra que o orlistat, outra droga disponível para reduzir a absorção de gordura pelo organismo, ainda é muito caro.
O médico Márcio Mancini, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, questiona as reações das autoridades à sibutramina. "O estudo Scout foi feito em pessoas com mais de 55 anos e histórico de doença cardiovascular e diabetes, um tipo de paciente que para o qual dificilmente receitávamos a substância, já que ela pode elevar um pouco os batimentos cardíacos", comenta. A sibutramina também pode provocar efeitos colaterais como boca seca, insônia e prisão de ventre.
Mancini conta que o fim da patente da sibutramina fez com que os preços de genéricos e similares da droga caíssem muito nos últimos dois anos, o que gerou aumento no consumo. Segundo ele, muitos médicos até deixaram de prescrever anorexígenos passíveis de provocar dependência, que são baratos, porque o tratamento com sibutramina passou a ser acessível.
O endocrinologista acredita que o total de 2 toneladas divulgado pela Anvisa não deveria causar tanto impacto, porque o problema para o qual é usado tem alta prevalência no país. Para se ter uma ideia, quase metade dos paulistanos apresentam sobrepeso. Já a incidência de obesidade varia de 13% a 15% em todo o país. "Se um terço dos obesos tomasse 10 mg de sibutramina diariamente, que é a menor dose, após três meses o total seria de aproximadamente 7 toneladas do medicamento", calcula.
Pelo lado dos pacientes, a decisão da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo traz outra questão: se a sibutramina traz tantos riscos aos pacientes, por que não foi banido pela Anvisa? Para o Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), os novos riscos apontados pelos pesquisadores e a proibição da sibutramina na Europa já seriam motivo para suspender a venda do produto no Brasil.
"O rigor maior na prescrição e na venda não elimina os risco para os pacientes que utilizarem o produto. Por isso, o Idec considera que, em nome do direito à saúde e do princípio da precaução, a sibutramina deveria ser suspensa no país", afirma Mirtes Peinado, consultora técnica do Idec.



Sinto-me no direito e na obrigação de comentar. Quem sai perdendo, obviamente, são os obesos que não conseguem pagar uma consulta com endocrinologista nem comprar a sibutramina. Durante dois anos trabalhei com o Márcio Mancini no ambulatório de Obesidade do Hospital das Clínicas da USP. Dezenas e dezenas de pacientes mudaram de vida, tamanha a perda de peso. Nunca prescrevíamos para pacientes de risco coronariano, e desconheço qualquer evento adverso cardiovascular no período.


Eis que aparece um, ou uma, ou uns burocratas governamentais para impor suas vontades tendo a força ao seu lado. "Não pode usar sibutramina, faz mal ao coração". E fumar, pode? E beber, pode? E se entupir de pizza, de fast food, como certamente muitos desses "barnabés" fazem, não prejudica o coração?


Este veto é mais um pesadelo orwelliano que tende a culminar com a proibição da sibutramina no país. As consequências possíveis são duas: a primeira é o aumento do uso de anorexígenos mais antigos e menos estudados, prejudicando todos os obesos do Brasil (cerca de 17 milhões de pessoas). A segunda é o tráfico ilegal de sibutramina, via Paraguai ou Estados Unidos, com custos absurdos, mais trabalho para Polícia Federal e nenhum acompanhamento médico para esses pacientes.


Cada um tem o direito de fazer o que quiser com o próprio corpo, e se aconselhar (caso ache necessário) com quem julgue capaz e conhecedor. A vida é um sem-fim de riscos. A frase da autoritária consultora mostra toda a sua cegueira em relação a este fato e à Medicina de um modo geral: "o rigor maior não elimina os riscos."


Gostaria de avisá-la que é IMPOSSÍVEL eliminar os riscos em qualquer atividade. Dirigir tem riscos, usar aspirina tem riscos, lipoaspiração tem riscos, jogar futebol, comer um chocolate. Uns preferem uma vida com o mínimo de risco, outros com o máximo. Ninguém tem o direito de impor o que é adequado ou não para o corpo de uma outra pessoa consciente e adulta. Nem com leis, polícia, imprensa ou todo o aparato truculento ao seu dispor.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Efeitos Colaterais da Testosterona

Em posts anteriores já havia falado que, quando o assunto são efeitos colaterais da testosterona e derivados, há mais caça às bruxas do que evidência científica. Um artigo desde mês do Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism (escrito por Fernández-Balsells e colaboradores) confirma esta opinião.

Trata-se de uma meta-análise, ou seja, um estudo que compila os dados de dezenas de outros estudos. Este agrupamento de informações confere maior poder estatístico à análise.

Os próprios autores reconhecem a escassez de estudos de qualidade sobre o tema. É tranquilizador, entretanto, ler que os únicos efeitos colaterais que alcançaram significância estatística foram o aumento da viscosidade sanguínea e uma leve queda do colesterol HDL. Não houve maior incidência de infarto miocárdico nem arritmias.


Outro ponto a se destacar é que as doses empregadas nestes estudos foram tipicamente muito inferiores às usadas como anabolizantes. Interessante observar que a endocrinologia, ao menos a internacional, mantém o ceticismo científico em lugar do preconceito barato em relação ao tema.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Atkins?

Outro dia, outra pancada na dieta Atkins, que segue cada vez mais em baixa. A mesma edição do Obesity citada no post abaixo compara os efeitos psicológicos de dietas isocalóricas muito pobres ou ricas em carboidratos.
Após um ano de tratamento, apesar de a perda de peso ser equivalente, a dieta muito pobre em carboidratos teve pior impacto sobre humor e afetividade.

Sono e Perda de Peso


Estudo de um grupo de Chigago (Obesity Suppl 2 - 2009) mostrou que quem dorme mais de 7h por noite preserva mais massa magra (músculos) quando submetido à dieta para perda de peso.
Em indivíduos que dormiam em média 5:15h por noite, 75% da redução do peso se deu através da perda de massa muscular. Para quem quer preservar os músculos enquanto emagrece, fica a lembrança da importância de sono suficiente.