sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Conheçam a BETA


Todo diabético precisa ser apresentado à Beta. E não se trata de nenhuma “Roberta” famosa, mas sim da célula-beta. As células-beta ocupam menos de 2% do volume do pâncreas, mas são as responsáveis pela nobre função de produzir insulina.
Na década passada, a moda era falar de resistência à insulina. Bradou-se aos quatro cantos como a obesidade aumentava a resistência dos órgãos à insulina, demandando a produção de enormes quantidades desta substância pelo pâncreas do sujeito obeso. De fato, naqueles obesos não-diabéticos, a quantidade de células-beta é 50% maior que a de indivíduos magros, para dar conta do recado.
O que algumas pessoas não sabem é que, para que o diabetes se instale, é preciso ocorrer defeito na secreção de insulina. Na realidade, quando se diagnostica o diabetes tipo 2 (que corresponde a mais de 90% dos casos de diabetes), cerca de 50% das células-beta já morreram. Pior ainda: seguem morrendo ano a ano, de modo que os níveis de glicose do paciente se tornam mais e mais altos, demandando tratamentos mais caros e complexos.
As células-beta morrem cometendo suicídio celular, que tem nome: apoptose. Para nossa esperança, a reprodução destas células ocorre mesmo após o diagnóstico de diabetes, embora em ritmo inferior à apoptose.
Boa parte da pesquisa atual do diabetes é voltada para dar uma animada nas células-beta, reduzindo sua apoptose, aumentando sua reprodução e melhorando a sua função. Engraçado que muitas surpresas vêm do estudo de drogas cuja ação se imaginava restrita à resistência à insulina. Eu bem me lembro das questões na época da residência em que precisávamos associar a metformina e as glitazonas ao fígado e aos músculos e gordura, respectivamente.
Um artigo da última edição do Diabetes Care (revista sobre diabetes de maior prestígio no mundo), escrito por um grupo da Universidade de Pisa, fala só da nossa amiga Beta. E surpreende ao mostrar que metformina e glitazonas melhoram a função de células-beta em meio de cultura (isoladas do resto do organismo) no laboratório. Há estudos que mostram como essas medicações tornam a célula mais resistente à sobrecarga de gorduras ou glicose na circulação, típicos do diabético. A metformina aumentaria até a sobrevida da “Beta”.
A redescoberta de velhas drogas pode abrir o caminho para a invenção de novos tratamentos. As recentes incretinas já redundaram em novas medicações que estão nas farmácias brasileiras e ajudam muitos pacientes. Preparem-se para ouvir mais e mais da “Beta”.

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